O presente blog se propõe a reflexão sobre os Direitos Humanos nas suas mais diversas manifestações e algumas amenidades.


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Prostituição Masculina


Desejo hoje refletir sobre o papel que garotos de programa assumem para eles em sua vida, como são considerados por sua clientela e o que resulta desta relação.

Foi largamente divulgado que a Polícia Espanhola desmantelou nesta terça-feira uma grande rede que explorava sexualmente homens brasileiros, em regra de 20 a 29 anos, a maioria advinda do Maranhão, sob promessa de trabalharem como go-go boys, modelos ou mesmo, assumidamente, como garotos de programas.

O esquema era bem montado, as passagens eram compradas com cartões clonados e antes os rapazes passavam por outros países da Europa para não levantarem suspeitas pela polícia da Espanha, para, em seguida, serem distribuídos para cidades diferentes da Espanha, todas pertencente a mesma rede criminosa.

Quando ficavam “queimados” no local, ou seja, batidos para os clientes, perdendo o caráter de novidade, por conseguinte, diminuindo a lucratividade, os organizadores realizavam a substituição entre os rapazes de uma cidade para outra.

Os organizadores estão respondendo pelo crime de escravidão sexual masculina e estima-se que tenham 80 rapazes do Maranhão vivendo sob ameaças e em regime escravo, uma vez que a metade do dinheiro obtido no programa realizado era repassada para a quadrilha, além de todos os garotos serem devedores de uma pretensa dívida originada pela passagem e hospedaria. Aliás, segundo noticiado, o local onde tais garotos dormiam era um ínfimo apto com vários beliches.

Ora, ninguém tem dúvida da razão pela qual um garoto de programa vai se aventurar a ganhar a vida na Espanha. É evidente, quer ganhar em euros e considerando a região da qual saíram, imagina-se que o valor do programa, comparado aos euros, fosse mesmo bastante atrativo.

Antigamente a maioria dos garotos de programas se afirmava heterossexual, apesar da imperiosa necessidade da ereção para transar com outros homens e de todo emprego de sedução para captação do dinheiro do cliente, que vai desde carícias até muitos beijos na boca. Hoje, já há aqueles que reconheçam desejo e se digam bissexuais ou homossexuais.

Aliás, não surpreende que a convicta heterossexualidade na cama vai até onde o dinheiro do cliente não pode pagar.

Há muitos artigos, relatos e até filmes interessantes de onde se pode extrair algumas características comuns a todos, com raras exceções: uma origem mais humilde associada a ambição, a fixação pela aparência física pessoal, a valoração excessiva por roupas e tênis de grife e, muitos deles, um traço forte e progressivo de vício sexual.

Prostitutos masculinos não são vistos da mesma forma romantizada ou folclórica que garotas de programas. O fato de se tratar de um homem com outro homem envolvendo dinheiro, a submissão é um dado que compõe esta relação de negócio e prazer, a qual na maioria das vezes será exercida por um deles, o que nem sempre é muito bem definido.

De um lado, sempre falando aqui genericamente, alguns garotos de programa querem o dinheiro, mas sentem certa repulsa pelos clientes, muitas vezes velhos e já sem atrativos físicos. A situação no qual se colocam, a submissão pelo dinheiro e o eventual nojo acabam revelando uma raiva disfarçada, um desdenho pelo cliente viadinho a quem ele prefere considerar um coitado (habitualmente exposto claramente nas conversas entre seus colegas que estão ali também fazendo igualmente programas). Por sua vez, clientes mais velhos, com mais acesso a cultura e poder aquisitivo tendem a exercer toda experiência para dominar os garotos de programa e obterem o alvo de seus desejos, numa provocada situação de falsa superioridade, apelando para seu status social e ridicularizando a ausência de acesso ao status pelo garoto. O que ocorre é que é um tentando humilhar o outro, apesar de ambos possuírem expectativas no outro (dinheiro e sexo) que lhes agradam e é o real objetivo final.

Os trabalhos do Prof. Doutor Luiz Mott, do Grupo Gay Bahia, sempre ressaltam que muitos dos inúmeros crimes registrados de homicídios aos homossexuais, se ocorridos na própria residência da vítima, foram praticados por garotos de programas contratados para ali estarem.

Garotos de programa são marrentos, gostam de subjugar gays, mas também são vítimas destes, os quais igualmente muitas vezes não poupam esforços para humilhá-los, direta ou indiretamente.

Mas se alguns clientes têm medo de garotos de programa, a recíproca é verdadeira. Determinados garotos de programa também receiam por sua vida quando fazem programas. O programa pode ser totalmente furado, clientes loucos, agressivos, desonestos e perigosos também é um fato real, sendo certo que garotos de programa vão para onde mandam, o que os tornam mais suscetíveis e vulneráveis.

Faço um parêntese para lembrar uma cena épica do filme “Mysterious Skin”, quando o garoto de programa é agredido e violentado por um cliente.

Cada um faz aquilo que quer mas, infelizmente, a vida dos garotos de programa possui uma linha muito tênue entre o cotidiano de um trabalho como outro qualquer e a marginalidade. A vida que levam não é nada fácil e o preço que pagam pode ser bastante caro.

Onde dinheiro e sexo andam juntos numa 'rasa' relação com 'briga pelo poder' já é complicado, o que dizer quando se inclui a facilidade da convivência com pessoas que são movidas pela ambição, domínio e sem censuras? Pior, se neste ambiente não for incomum estarem presentes os desajustados que se permitem roubar, agredir e se dar bem a qualquer custo? Sim, isto existe. Alguns bandidos utilizam a fachada de garoto de programa apenas para encontrar sua vítima e facilitar o seu verdadeiro intento de dar golpe em 'cinderelas' desejosas e desatentas.

Dá para imaginar como deve ser complicado se manter acima da linha que o separa da marginalidade criminal? O preço que este garoto paga é alto, altíssimo. Vida fácil seria se o ambiente que vivesse fosse assemelhado a um convento, com orações, palavras boas e apenas exemplos de bondade. Quem pode responder até onde aquilo que condenamos como reprovável (por pior que seja a primeira vista), que se torne cotidiano e comum para o garoto deixa de ser visto como algo anormal e censurável? Neste caso, escambar para o crime depende apenas de um simples passo em falso.

Garotos de programa, antes de qualquer coisa, são garotos apenas, e, como todos os outros, precisam de apoio, acesso a informação e saúde, direitos sociais e, também, da ajuda do Estado. Este sim, inapto e descuidado com este garoto, desde sempre. Trabalhar com o corpo pode (ou não) ser opção, e não há nada de indigno nisto, mas é inadmissível que continuem a trabalhar nos subterrâneos da vida, no submundo marginal, apenas porque assim manda a moral e bons costumes. É uma hipocrisia.

Há necessidade premente de ser rompido o circulo vicioso da falta de dignidade nesta relação do garoto de programa e cliente.

Trata-se de uma relação de sexo por dinheiro e fim. Não cabe julgar. O garoto de programa deve ser tratado com o mesmo respeito e dignidade que tratam os demais trabalhadores, inclusive, o presidente da república, pois uma vez reconhecido o respeito, também muito mais fácil o consequente respeito pelo cliente. Só é possível dar aquilo que se tem.

Por todo Brasil há propagandas de saunas que oferecem os serviços de garotos de programa. Não deveria ser crime a exploração de sexo para aqueles que desejam oferecer livre e conscientemente seus serviços para este fim, em local mais seguro. Assim como estas saunas deveriam ser obrigadas a contratação oficial destes rapazes, com direitos plenos, viabilizando mais efetividade à saúde pública, direitos previdenciários, seguro desemprego, férias e etc, como todo e qualquer outro cidadão trabalhador.
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O reconhecimento pelo estado acerca da dignidade de um prostituto é o primeiro passo que deve ser dado. Se isto ocorresse os garotos de programa do Maranhão, vitimados na Espanha, não teriam passado por tal situação desumana.

Exploração por escravidão sexual no primeiro mundo, em pleno ano 2010, é um soco inadmissível aos direitos fundamentais.
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imagem:
http://paroutudo.com/noticias/wp-content/uploads/2010/01/carona.jpg

Um comentário:

Anônimo disse...

Belo post!
Sobretudo, gostei da foto!
Beijo
Cristina BR

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