O presente blog se propõe a reflexão sobre os Direitos Humanos nas suas mais diversas manifestações e algumas amenidades.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

CARTA ABERTA A ANGÉLICA IVO, MÃE DE ALEXANDRE THOMÉ IVO RAJÃO QUE COMPLETARIA HOJE 15 ANOS


Antes de ser homossexual, advogado, cristão e qualquer outro adjetivo que por ventura me qualifique, sou um ser humano.

Assisti o vídeo da mãe de Alexandre Thomé Ivo Rajão e sofri com ela, por ela, seu filho, seus familiares e sua história trágica.

Se o Estado não soube criar meios legais que contribuísse para que a vida de seu filho fosse preservada, pelo menos ouça agora um apelo aflitivo de uma mãe que clama por justiça e para que se faça algo contra uma homofobia a qual nem sabia existir.

Ninguém tem condições de sequer imaginar a dor desta mãe, especialmente hoje, dia no qual seu filho, se vivo estivesse, completaria 15 anos de idade. Uma mãe que descobriu na agenda de seu filho que o mesmo sonhava ter neste dia uma festa e convidados, para celebrar a vida!

Como cidadão, me sinto envergonhado diante desta mãe. Tenho vergonha de estar escrevendo sobre a morte de seu filho e seu sofrimento. E vergonha absoluta em saber que os jovens, covardes e homofóbicos acusados de assassinarem seu filho, sob cruel tortura, durante três horas, pasmem, estão soltos!

Protesto como cidadão, mas prefiro escrever para esta mãe como filho.

Alexandre Ivo se foi com 14 anos, mas sua vida continua no amor dedicado por esta mãe. A festa só mudou o endereço, num local sem risco de violência ao final.

Depois de assistir a declaração no vídeo abaixo, não tenho dúvida de dizer para esta mãe que o maior presente de quinze anos que Alexandre Ivo poderia ganhar foi tê-la como mãe.

Meu absoluto respeito a esta mãe, uma cidadã brasileira, ainda que sem o reconhecimento e a devida contraprestação do Estado.



A resposta daquilo que seria a "sujeira" no segredo revelado pelo personagem Gerson, da novela "Passione"



Quando o personagem Gerson, vivido por Marcelo Anthony em "Passione", revelou seu segredo, incluindo evento que envolvia prostitutas e homossexualidade, passei imediatamente a prestar atenção na novela que corria solta na televisão, com olhos e ouvidos atentos.

Primeiro revelou que gostava de sexo “sujo” e em seguida passou a descrever o que para ele era sujo.

Na relação daquilo que o personagem considerava sujo disse que se sentia prazer em ver casais homossexuais fazendo sexo em banheiros públicos.

'Eu não sou gay, nunca fui homossexual, mas o cheiro fétido dos banheiros públicos me atraia. Eu não queria participar, mas eu via, olhava, fascinado. Aquela atmosfera suja, proibida, mexia muito comigo'.

Revelou ainda que bastava o cheiro e as situações que via nos prostíbulos e banheiros públicos, para sentir prazer, e ao mesmo tempo, envergonhado com a situação

Mas outros exemplos surgiram: prostitutas e travestis que se comercializam pelas ruas, denotando baixo nível. Aliás, a única fantasia levada a prática teria sido com uma prostituta de rua, "bem farta", “roliça”, ou seja, bem gorda.

Depois de ser pego e achacado por policiais, passou a se saciar com sites de pornografia, na internet, com o tal sexo 'sujo'. Segundo ele, 'era um prazer enorme me esconder para olhar aquilo. Era um prazer tão forte. Mas ao mesmo tempo aquilo me fazia mal'.

A primeira pergunta que me fiz, depois destas cenas, foi se o texto da novela Passione teria insinuado que sexo homossexual era sujo ou se pelo fato do personagem colocar tudo no mesmo saco, poderia ser assim entendido.

Recorri à ajuda técnica e imediatamente repassei o questionamento a competente Psicóloga Clínica e Especialista em Sexualidade Humana – Unicamp - Campinas/SP, Dra. Maria Cristina Martins (foto ao lado), que admiro profundamente, por sua indiscutível capacidade, inclusive, reconhecida no meio científico, e, principalmente, por saber que se trata de alguém destituída de preconceitos.

Após meus relatos e sua advertência que não assiste novelas, os esclarecimentos de Cristina Martins foram no sentido que a única certeza que poderia se extrair da narrativa era que o personagem fazia uma associação da homossexualidade ao proibido, dentro dos seus padrões de moralidade sexual.

Acrescentou que, em regra, a fantasia sexual procura preencher um vazio na vida sexual e se dá exatamente nos atos que não se tem coragem de se vivenciar. Aliás, advertiu, que algumas fantasias nem devem sair desta esfera porque inaceitáveis socialmente, citando como exemplo os exibicionistas que fantasiam exibir seus órgãos genitais publicamente.

Quanto a eventual homossexualidade enrustida do personagem, afirmou que só um trabalho em conjunto com eventual cliente, em situação análoga, seria possível enfrentar a questão da orientação sexual.

Questionei a Cristina Martins se não teria havido uma exacerbação do autor, já que me pareceu pouco crível que tal segredo possuísse toda aquela repercussão nuclear perante aqueles que descobrissem ‘o segredo’ do Gerson. Afinal, estávamos falando de sexo virtual, envolvendo eventualmente prostituição, algo tão comum num universo machista. E já fui me adiantando, não pelo ponto de vista do personagem, uma vez que sabia que do ponto de vista psicológico bastaria o seu sofrimento pessoal para se caracterizar algo grave para o mesmo, mas aos olhos da esposa que transpareceu um grande nojo e do irmão, que chegou a chantageá-lo para não divulgar para família.

A resposta da sexóloga não poderia ter sido mais incisiva: - Aos seus olhos, dentro da sua moralidade sexual não se justificaria, disse ela. Em seguida a sexóloga esclareceu existir muita hipocrisia, mesmo junto aqueles que aparentam ser libertos da moralidade tradicional, razão pela qual, rapazes criados por famílias supostamente estruturadas acabavam praticando atos de violência homofóbica.

Depois desta resposta, vi que aquilo que pensava não refletia necessariamente um pensamento comum, da maioria das pessoas, e na dúvida, no desejo de me afastar da minha ‘moralidade sexual’ pessoal, indaguei sobre o tal sexo considerado “sujo” pelo personagem, o qual me pareceu possuir uma conotação de “anormal”.

Segundo a sexóloga Maria Cristina Martins, uma das razões que dificulta a compreensão dos interesses sexuais “não convencionais” é o fato da confrontação utilizada ser a prática sexual tradicional, aqui considerada aquela com intuito da procriação, tida como a mais importante função biológica.

No entanto, de imediato foi me sugerindo a leitura de um trecho de seu artigo com o Dr. Paulo Roberto Ceccareli, sobre o tema "PRÁTICAS SEXUAIS DITAS “DESVIANTES”: PERVERSÃO OU DIREITO Á DIFERENÇA?", onde conclui que apesar da sexualidade humana ser objeto de estudo desde a antiguidade, não há consenso sobre o assunto:

“partindo-se da premissa que a definição de “normalidade” é histórica e culturalmente construída, conceitos como “normal”, “saudável” e “patológico” estão sendo questionados por todos os profissionais que se interessam pelo estudo e compreensão da sexualidade humana. As inúmeras manifestações da sexualidade humana, assim como as mais variadas buscas de prazer, confirmam uma vez mais que no ser humano a sexualidade não está vinculada á procriação”.

Então, eu que estava preparado para pixar o personagem, o segredo e a narrativa com cheiro de preconceituosa me recolho dividindo com vocês essas informações.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Folha de São Paulo frequenta a escola de Reinaldo Azevedo


Sabe-se que o Jornal a Folha de São Paulo luta arduamente para que não seja permitida qualquer forma de censura, até porque, apesar de se tratar de um jornal de informação, opta pela suposta prática de partidarismo político em enfrentamento ao governo petista. Ainda que suas razões aparentem ser pessoais, trata-se de uma luta justa, uma vez nenhum estado democrático de direito pode permitir que a censura se instale em sua sociedade.

Se o editorial desejava se manifestar sobre a questão de seu particular interesse, que lhe aflige, não deveria utilizar um outro tema que desconhece, na tentativa de alcançar seu objetivo. Como é comum ocorrer em situações tais, a visão costuma ficar turva, prejudicando o parâmetro da racionalidade com pensamentos tendenciosos, e PRINCIPALMENTE, resta frouxo o imprescindível cuidado que deveria nortear qualquer manifestação que seja endereçada as massas. O resultado disto foi um editorial comprometido, publicado pela Folha de São Paulo, neste último domingo (29/11), sob título: “Lei da Homofobia”.

Os pecados do editorial foram inúmeros e bastante vergonhosos. Parece ter se embasado pela pretensiosa lição de Direito e os princípios que regem a Interpretação das leis através do bloguista Reinaldo Azevedo, com direito do editor de criar até o que inexiste no mundo jurídico.

Afirma o editorial, entre outras besteiras, que o projeto de lei que pretende criminalizar a homofobia seria uma ampliação ao que já existe em lei que pune o preconceito racial e em códigos vigentes:

Na verdade, a chamada Lei da Homofobia constitui-se de uma ampliação, no que diz respeito à orientação sexual, de um texto em vigor desde 1989, punindo atos e manifestações de preconceito racial. Trata-se de uma espécie de reforço a direitos de grupos que já encontrariam proteção na Carta e em códigos vigentes.”

Que triste e feia confusão fez o editor!

Primeiro, em nosso ordenamento jurídico INEXISTEM lei e dispositivos legais em códigos que PUNAM qualquer ato de preconceito em razão da ORIENTAÇÃO SEXUAL

Aliás, a orientação sexual é um termo até então jamais referendado por qualquer lei nacional existente. Trata-se de uma grave OMISSÃO das leis até então existentes.

Portanto, também jamais poderia se cogitar de “reforço” de punição ao tipo penal baseado na "orientação sexual", simplesmente inexistente.

A confusão do editor da Folha de S. Paulo deve decorrer da existência da previsão de punição para condutas injuriosas praticadas contra alguns grupos utilizando elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência prevista no § 3o artigo 140 do Código Penal. Estes atos repudiados pelo legislador são designados como injúria qualificada, mas como se constata, nela não se inclui a orientação sexual.

Outro motivo deste grave erro público do editor da Folha de S. Paulo é atinente ao fato de sugerir que o dispositivo acima indicado tutela o “preconceito racial”, ao qual, para o jornalista, a orientação sexual estaria supostamente inclusa. O sujeito passivo a responder pelo crime de preconceito racial são aqueles que atuam com racismo, e não homofobia. Se pela doutrina e justiça brasileira a homofobia fosse entendida como racismo, todos os problemas dos homossexuais já estariam resolvidos e a pretensão do projeto lei 122/2006 que pretende criminalizar a homofobia seria, no mínimo, perda total de tempo e sem qualquer razão de ser.

Mesmo diante desses crassos erros, não se pode negar que em relação a honra não exista um dispositivo legal genérico previsto no código penal que os homossexuais pudessem se valer. Diferente daquela relação que pune a injúria como qualificada com pena de reclusão de um até três anos, há a injuria simples, na qual os homossexuais poderiam se socorrer, onde a pena é de detenção, e não reclusão, e pena de seis meses até um ano. Portanto, aceita-se o dito reforço alegado pelo editor, mas apenas para igualar os homossexuais (não previstos especificamente em qualquer regramento) a proteção nos mesmos patamares dos direito concedidos a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência, com idêntica punição.

Beira a ignorância e assusta que um editorial avente a possibilidade para todos os seus leitores que um projeto de lei tenha o condão de censurar a BIBLIA, quando diz “espera-se que ninguém estará impedido pela nova lei de considerar o homossexualismo atentatório aos mandamentos de Deus; até a Bíblia teria de ser censurada, nesse caso.”

A Bíblia jamais foi objeto de alvo do projeto lei em questão. Chega a ser ofensiva a honra dos homossexuais esta acusação. Aproveitando aqui a recente celeuma, a ser considerada a coerência adotada pelo editorial da folha, todos os editores dos livros de Monteiro Lobato estariam presos por crime de racismo.

Alguém precisa dizer o óbvio para o editor da folha de são Paulo para não confundir ‘alhos com bugalhos’. Por exemplo, jamais será uma censura, decretada por lei, a proibição de um cidadão manifestar seu pensamento com discriminação contra os negros, impedindo-o de xingar de "macaco" ou qualquer outra designação que represente ato odioso de discriminação, sob pena de punição criminal. Antes dos princípios constitucionais que garantem firmemente o livre direito de expressão, não permitindo a censura, a razoabilidade dos direitos fundamentais impõe que se prevaleça o direito da dignidade da pessoa humana.

Francamente, foi extremamente deplorável essa argumentação do jornal paulista. Em que pese a preocupação da Folha, cumpre esclarecer que a religião possui TODAS as proteções possíveis do Estado, seja constitucional, criminal, civil, trabalhista e tributário.

Logo, também cai por terra a assertiva que o projeto lei dependeria “do bom senso do Ministério Público e da magistratura” para a aplicação adequada da lei e igualmente, como se constata, não há que se falar em “excessivo rigor nas punições”, pois consoante já demonstrado, apenas se deseja que a punição homofóbicos seja a idêntica aquela aplicada para os demais casos relacionados na discriminação qualificada.

Caso o editor houvesse preferido se informar com juristas, deixando de se pautar por palpiteiros ensandecidos, que no auge de suas arrogâncias se arvoram em especialistas jurídicos, não perderia seu tempo, ainda que de boa-fé, na sugestão da “busca de um acordo razoável em torno de possíveis modificações em detalhes do texto, evitariam os inconvenientes reais ou imaginários que se antepõem à sua aprovação” e, muito menos, não teria nos prestigiado com sua insciência e tampouco faria o desserviço de espalhar temor e besteiras aos seus leitores.

sábado, 27 de novembro de 2010

Os homofóbicos e a "homossexualidade recalcada" aos olhos da psicanálise

Não pude comparecer ao Seminário Estatisticas e Indicadores Sociais promovido pela UFRJ no meado deste mês, no qual estava inserido entre os temas a "Diversidade Sexual", a ser abordado pela Dra. Silvia Magaravite (foto ao lado), psicanalista. Por sorte, a mencionada palestrante publicou em seu blog "psicanálise para quê?" o trabalho apresentado.

Muito interessante e esclarecedor. Sugiro a leitura na íntegra.

A Dra. Magaravite esclarece psicaniliticamente a importância desta pesquisa do IBGE acerca dos números de casais homossexuais em nossa nação, valendo-se das lições de Lacan, que defendia que "aquilo que está no real precisa ser simbolizado, pois o que existe no real, caso não seja simbolizado, retorna para o mundo de modo fantasmático", aduzindo que a existência de casais gays é real, e a apuração realizada pelo Censo representaria sua simbologia, dando visibilidade.

O antropólogo e decano do Movimento LGBT, Dr. Luiz Mott, defende a mesma visibilidade, seja através das Paradas Gays e outras ações, nem sempre muito bem-visto, como a retirada do armário a orientação sexual de artistas, políticos, e demais pessoas públicas e famosas.

Dra. Silvia Magaravite contesta as terminologias diferenciadas, pois independente de sermos homossexuais, somos seres humanos. Enfim, critica os vários termos que são aplicados aos seres humanos, apesar da Constituição Federal reconhecer, em tese, uma igualdade de todos os cidadãos.

Para falar sobre a "resistência" da humanidade em aceitar a "homossexualidade recalcada", discorre sobre Freud:
"Freud, o pai da psicanálise, possuía uma compreensão acerca da sexualidade humana como “perversa polimorfa”, ou seja, como, ao nascermos, não temos inscrito no nosso inconsciente qual é o nosso próprio sexo anatômico e muito menos qual é nosso objeto do desejo sexual, a princípio, “todos seres humanos são capazes de fazer a escolha de um objeto homossexual e que de fato, esta escolha foi consumada no inconsciente.” Ele dirá também, referindo-se a estrutura psíquica "normal", que originariamente somos todos bissexuais. Essa organização psíquica se constitui na primeira infância, ou seja, entre 0 e 3 anos de idade."
E demonstra, por dados históricos, o tempo que se fez necessário para que a homossexualidade fosse retirada da lista de doenças:

Em 1930, Freud assinou a primeira petição discriminalizando a homossexualidade e em 1935, dirigindo a mãe de um homossexual
...
Mas foi somente em 1973 que a American Psychatric Association (associação psiquiátrica americana), deixou de considerar a homossexualidade como doença e isso se deu somente porque ativistas gays em 1970 e 1971 invadiram o encontro anual da APA.
...
só em 1993, que a OMS – A Organização Mundial de Saúde – retirou a homossexualidade da lista de doenças."

Diante deste período, a psicanilista volta ao tema e pergunta a razão de tanta resistência a homossexualidade recalcada. Ainda bem, pois só assim entenderemos qual o significado da "perversa polimorfa” em nossas vidas e o que é exatamente a tal "homossexualidade recalcada":
"Vamos olhar para essas datas, porque que a humanidade tem tanta resistência a uma coisa tão normal quanto a homossexualidade?

Essas datas só nos mostram a enorme resistência da humanidade em aceitar sua homossexualidade recalcada. Pois de acordo com a própria questão da “perversão polimorfa”, em nossa infância, necessariamente teremos de fazer uma escolha do objeto sexual e deixaremos as demais possibilidades recalcadas. E para a maior parte dos sujeitos o que fica recalcado ou é a homossexualidade ou a heterossexualidade."
Identifico a "homofobia recalcada" sendo o alvo daquela suspeita levantada por muitos dos homossexuais em relação as atitudes discriminadoras dos homofóbicos, fazendo com que a maioria se questione sobre a possível existência da "homofobia internalizada". Isto porque, segundo o que entendi da psicanalista, TODOS os seres humanos tiveram que fazer uma escolha de um objeto sexual naquela fase da infância e deixaram "as demais" possibilidades (para os homossexuais, no caso, a heterossexualidade) "recalcada". Donde se conclui que em todo heterossexual, por sua vez, também resida uma "homossexualidade recalcada", sendo que alguns lidam bem com isto e outros não.

Neste sentido, conclui a Dra. Silvia Magaravite:
"E aquilo que vemos no social é que quanto maior for nossa dificuldade em aceitar em nós a homossexualidade recalcada, maior a possibilidade que temos de fazer deste outro, que pensamos ser tão diferentes de nós, objetos de nosso ódio, daí é que vemos tantas agressões e até assassinatos".
Me parece que a chamada "homofobia internalizada" decorre da "homossexualidade recalcada", apenas não sei se ambas são coisas distintas ou terminologias de um mesmo conceito.

De qualquer forma, muito rico o tema levantado no Seminário em questão. Ajuda a compreendermos melhor as dificuldades pelas quais passamos, sem as quais o enfrentamento só é dificultado. No entanto, apesar de algumas transcrições, imprescindível a leitura do texto integral, no contexto imposto pela psicanalista, pois à luz do óbvio, aqui houve uma pretensa retratação daquilo que me foi inspirado, o que necessariamente não representa a realidade do que foi exposto pela expert.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Neste clima de violência urbana transmitida pela televisão, uma pergunta: como vive o homossexual morador de Favela no Rio de Janeiro?



O Rio de Janeiro ganhou no ano passado primeiro lugar de destino gay numa votação internacional e também em outra eleição como sendo o local mais feliz.

Isto não é bom apenas para o Rio de Janeiro, mas para o Brasil e especialmente para LGBTs nacionais. A entrada de divisas é uma língua que as autoridades públicas entendem e reconhecem, por conseguinte, estes ganhos contribuem para visibilidade e reconhecimento do Estado acerca da existência deste segmento na sociedade.

Infelizmente, o Rio de Janeiro de hoje televisionado mostra uma outra faceta também existente, a da violência urbana, centenas de marginais integrantes de diferentes facções ocupando a Favela do Cruzeiro e outras comunidades, criando um clima de absurdo terror para toda a sociedade, mas em especial para os moradores daqueles locais. A violência no asfalto é grave, mas mais pontual, veículos incendiados e terrorismo, já aquela da Favela apesar de crônica, permanente, é ainda mais concentrada e perversa.

No Rio, como se sabe, o Comando Vermelho surgiu no antigo presídio da Ilha Grande, nos primeiros anos da década de 70, fruto da convivência de presos comuns e presos políticos. Depois surgiram diferentes facções.

Podemos dizer que a violência de hoje é resultado da falta do cumprimento dos deveres e garantias sociais do estado e daquele antigo regime de ditadura.

O Rio de Janeiro conhecido pelos seus morros verdes e o mar, favoreceu, topograficamente e clima (entre outros fatores), o surgimento de favelas.

E foi lá, nas favelas cariocas, onde se concentram os principais desfavorecidos e discriminados que a marginalidade, também oriunda do total descaso social, estrategicamente se estabeleceu e passou a dominar aquele especifico território.

Dificilmente um carioca já não subiu uma favela. Já estive em três pelo menos, mas só posso realmente dizer que conheci, ainda que parcialmente, a Rocinha. A maior favela da América do Sul. Dificilmente também alguém que tenha subido um morro já não tenha avistado um marginal armado.

A maioria absoluta dos moradores são pessoas trabalhadoras e honestas, mas a “marca” da favela para quem não vive por lá é e continua sendo como domicílio dos pobres, gangues e marginais.

Óbvio que em toda favela possuem homossexuais. A orientação sexual também não escolhe local.

A mero título de exemplo, basta comparecer a um ensaio da escola de samba destas comunidades que se descobre uma imensa quantidade de gays, lésbicas e travestis oriundos de favelas.

Neste mundo atual tão globalizado e com recursos de tecnologia, a tarde toda assistir na principal rede de televisão os “bandidos” e “mocinhos” fortemente armados, tanques de guerra, carros blindados, caveirão, helicópteros, carros, pneus incendiados, centenas de policiais e assustadoramente centena de marginais, parece mais sessão da tarde exibindo o filme Tropa de Elite – Sem ficção.

Para aqueles que moram no Rio de Janeiro a visão e sentido não são os mesmos, imaginem então para quem mora nestas favelas? Filhos da pátria pobres, grande maioria negra, frágeis. Vivem a discriminação na pele, pela condição social e local onde moram. A polícia chega e, evidente, tem que passar o pente fino, pois ninguém traz na testa se é honesto ou marginal, mas isto não faz com que deixe de ser humilhante. Se não morasse ali não passaria por tal constrangimento. Ao mesmo tempo, o bandido e a milícia abordam e o morador tem que agüentar e se calar, pois depois quem manda e cuida do local são eles.

Ninguém respeita o morador da favela, mas nesta guerra formada, nenhuma das três pontas deste triangulo possui escolha. O bandido quer se salvar e passa por cima de qualquer um, a polícia quer prender, tem que entrar e verificar, e o cidadão morador tem que suportar, já que a ele não é dada nenhuma escolha. Quer tentar entender, basta pensar que o seu lar é, em regra, o local que quando chega, significa a sua segurança, proteção. Não para quem mora numa favela.

E agora lhe pergunto: e os gays, lésbicas e transgêneros que moram nestas favelas? A “escória” da “escória” nos padrões culturais machistas, religiosos e de deputados insanos que afirmam ser falta de porrada? Como estas pessoas que mesmo sem invasão de polícia já viviam sob o crivo de bandidos a ameaça as suas vidas, por conta de suas orientações sexuais? A pobreza está ainda muito ligada a falta de acesso da boa formação, a qual seria uma das únicas expectativas de um futuro melhor. Mas se a toda discriminação do morador de favela ainda tiver que ser acrescido este plus, da violência e discriminação aos LGBTs, como agora eles estarão?

Dentro do universo de quem mora numa favela, sempre encontraremos aqueles que lutam por direitos humanos que reclamarão pelos direitos das minorias dos negros, das mulheres, dos adolescentes, idosos e etc.

No movimento social LGBT muito se discute sobre os imprescindíveis direitos de igualdade e da dignidade da pessoa humana, mas deveríamos prestar uma especial atenção àqueles que conseguem sofrer uma discriminação ainda maior que o restante de nós.

Diante desta confrontação, quase beira ao ridículo quando gritamos pela união civil, direito de demonstração de afeto nos lugares públicos e tantos outros direitos. Para a maioria deles isto nada mais é que supérfluo. Não que tais direitos não sejam fundamentais e não se refiram a dignidade. São e precisam ser exigidos. Mas nada se compara a profundidade ao mesmo direito à dignidade da pessoa humana reclamada por estes cidadãos.

Se este terrível evento no Rio de Janeiro servir para algo de bom, que seja para fomentar a reflexão e reforçar a ação do movimento social contribuindo, através de sua aparente organicidade, a cobrança junto às autoridades públicas municipais, estaduais e federais para que os devidos acessos sejam garantidos a estes LGBTs.

Temos a obrigação de ajudar a cobrar do Estado.

Sei que no ano passado até houve um Seminário de Políticas Públicas para População LGBT Moradora de Favelas, envolvendo a ‘Conexão G’, que este ano houve a primeira passeata gay da Favela da Rocinha, que há Passeata Gay da Favela da Maré, mas sinceramente não faço a menor idéia é feito em termos práticos para a população LGBT da favela. Se alguém souber, partilhe conosco! Fica aqui minha solidariedade aos homossexuais moradores das favelas cariocas.

Fotos:
Rapazes se Beijando - 1a. Parada Gay da Rocinha/RJ -de Saulo Cruz
Policiais e Tiro - Favela Vila do Cruzeiro/RJ - G1

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Delegado pedirá hoje a prisão preventiva do agressor homofóbico da Av. Paulista, onde ontem também foi palco dos protestos ocorridos na Mackenzie


A cena que o vídeo não mostra, logo depois da vítima ser atacada com a lâmpada no rosto e esboçar uma reação, foi revelada pela mesma ontem em depoimento na delegacia. Segundo a aludida vítima, o acusado maior de idade, Jonathan Lauton Domingues, lhe deu uma gravatada, o segurou e disse aos comparsas:
‘Pode bater que agora ele está seguro’
Neste momento foi que a vítima mais apanhou.

Apareceu também uma outra nova vítima, que reconheceu aquele doce e gentil adolescente (que atacou com a lâmpada fluorescente o rosto da vítima antes mencionada) como sendo responsável, naquela mesma noite, de lhe ter atacado dentro de uma boate, sempre com a ajuda da gangue. Esta vítima sangrou a boca, teve fratura na região e quase perdeu os dentes!

Eu esbarrei nele sem querer e ele veio para cima de mim. Tenho certeza de que se trata da mesma pessoa que aparece batendo com a lâmpada no outro rapaz. Vi as fotos no site [de relacionamentos na internet] e comparei com as imagens das câmeras de segurança mostradas na televisão”, disse o estudante.

Detalhe, esta nova vítima, chegou a ver o perfil dos acusados no Orkut, antes dos mesmos apagarem. Disse também a mais nova vítima, que o anjinho adolescente que o agrediu fazia parte de comunidades de cunho violento no Orkut como “Um soco vale mais que mil palavras” e “Comigo é joelhada na cara”.

Papai e mamãe hoje podem até fazer cara de surpresa, mas bem poderiam estar economizando o dinheiro gasto com advogado se tivessem antes investido bem menos num bom terapeuta.

O Delegado José Matallo Neto aguardava ontem o acusado maior de idade, e garantiu “Não tenho a menor dúvida. Vamos fazer o relatório e vamos fazer o pedido de prisão preventiva dele, provavelmente nesta quinta-feira (25)”, declarou.

Por motivos racionais, não fico na torcida desses pobres de espírito permaneçam presos por muito tempo, mas realmente fico muito feliz dos menores serem neste momento internados numa instituição e que seja pedida a prisão preventiva do maior. Lamento pelo sofrimento da família e até por eles, mas é o mínimo que precisa ocorrer para impor os limites que parecem perdidos por todos, especialmente pelo grau da violência experimentada.



Enquanto isto, em outro ponto da cidade de São Paulo, em torno de 500 pessoas protestaram contra a homofobia na tarde desta quarta-feira, dia 23, em frente à Universidade Presbiteriana Mackenzie em repúdio a nota publicada no site da universidade (realizada antes dos crimes homofóbicos de São Paulo e Rio de Janeiro) que se posicionava contrária a Lei da Homofobia.

Informou o G1 - São Paulo que depois de finalizarem um ato em frente à Universidade Presbiteriana Mackenzie manifestantes continuaram a protestar contra homofobia com uma caminhada pelas ruas do centro da cidade até a Avenida Paulista, na altura do número 700, onde ocorreu uma agressão no dia 14 de novembro.
Durante todo o trajeto, os manifestantes apitaram, carregaram bandeiras e cartazes pedindo respeito e gritavam frases como “contra a homofobia, a luta é todo dia” e “contra agressão eu quero proteção.”

A manifestação não foi programada, segundo Carolina Latini, de 20 anos, aluna do 1º ano de ciências sociais na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). “Nos organizamos para o evento em frente ao Mackenzie. E a manifestação continuou sem nenhuma programação. Achei incrível a iniciativa. Esta é a verdadeira parada gay", disse.

"Pela primeira vez a galera jovem se reúne em um movimento espontâneo, sem lideranças ou militantes tradicionais. Isto é muito importante", afirmou o funcionário público Beto Sato, de 30 anos.
Impossível melhor exemplo que este dado pelos jovens paulistas e, concordo com a Carolina Latini, esta passeata foi a melhor representação daquilo que se espera de uma verdadeira Parada Gay.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Um dia de verdadeiro orgulho e boas notícias



Fui convidado pelo Carlos Tufvesson para o lançamento da campanha “A Moda na Luta contra o HIV” que promoveu nesta terça-feira no Palácio da Cidade do Rio de Janeiro, na qual as principais grifes de moda do quadrilátero de Ipanema se unem pelo mesmo ideal, colaborar com as crianças e adolescentes da Sociedade Viva Cazuza.

Esta campanha irá até o dia primeiro de dezembro e este ano serão vendidas por estas lojas chinelos e necessaire customizados e a renda obtida será revertida para a Sociedade Viva Cazuza.

Uma coisa é escrever estas frias palavras, outra totalmente diferente é entrar em contato pessoal com as crianças, adolescentes e a benfeitora Lucinha Araujo. A beleza e importância do evento passa a ter pulso, vida e emoção.

Lucinha Araujo é muito mais que a mãe do nosso Cazuza. É a mãe, por opção, de todas aquelas crianças e adolescentes e de uma causa, além de ser de uma elegância, simplicidade e simpatia ímpar.

O Prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, deu um verdadeiro show de integridade política, humanidade e respeito aos homossexuais.

Em seu breve discurso, em tom descontraído, reconheceu a importância da campanha organizada pelo Tufvesson, garantiu a manutenção da Sociedade Viva Cazuza (deixando Lucinha Araújo verdadeiramente surpreendida e em êxtase) e respeitosamente rendeu homenagens ao seu adversário político o ex-prefeito Cesar Maia, quem já havia firmado pacto de contribuir com a Sociedade Viva Cazuza no mandato anterior.

O Prefeito criticou, de maneira contundente, a forma como as campanhas do segundo turno das últimas eleições trataram questões envolvendo direitos homossexuais e anunciou, publicamente, que a partir de janeiro criará Coordenadoria Especial de Assuntos da Diversidade Sexual em sua administração para questões e direitos LGBTs, do qual Carlos Tufvesson será o principal responsável.

Eduardo Paes
, talvez por ser pai e prefeito, longe de câmeras, flash e a maioria dos convidados, demonstrou um carinho e respeito, que não presenciei de nenhum dos convidados presentes, no trato com aquelas crianças e adolescentes, um tanto acanhadas naquele espaço. Gostei do que vi.

Soube pelo Cláudio Nascimento, Superintendente da SUPERDIR do Governo do Estado RJ, também presente ao evento, que inúmeros dados serão brevemente anunciados que contribuirão bastante a mapear a homofobia no Estado do Rio de Janeiro e que vários estados brasileiros seguirão o exemplo do Rio, introduzindo no registro de ocorrência policial a anotação de crime praticado justificado pela homofobia. Afirmou ainda outros informes que também surgirão no momento oportuno. Penso que se houvesse mas comunicação entre os agentes do Estado e a sociedade LGBT, apesar de nós cidadãos continuarmos nossa tarefa de cobrança, passaríamos a reconhecer de forma mais justa os trabalhos realizados. Gostei muito daquilo que ouvi do Superintendente.

Além de tudo foi uma noite extremamente agradável e gratificante. Estavam presentes e participaram da roda de conversa alguns outros militantes LGBTs que particularmente admiro, a juventude gay, bem representada pelo Judson Maciel e seu companheiro Pedro, o jornalista Eduardo Peret e o Professor de Direito e ex-candidato a Deputado Federal pelo PV, Sérgio Camargo, entre outros.

Fiquei muito orgulhoso de Carlos Tufvesson que havia chegado de viagem do exterior, não havia sequer dormido e estava ali, lutando e criando possibilidades para conquista de direitos para aquelas crianças e adolescentes e também todos nós, cidadãos LGBTs cariocas. Ele não fala, faz.

E, por fim, saber que os quatro adolescentes que agrediram várias pessoas na Avenida Paulista motivados pela homofobia tiveram a internação provisória na Fundação Casa decretada pela 1ª Vara da Infância e Juventude de São Paulo, nesta terça-feira (23), a pedido da promotora da Infância e Juventude Ana Laura Lunardelli, me fez crer que a justiça existe e é para todos.

Foto: Beth Santos/IG
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