O presente blog se propõe a reflexão sobre os Direitos Humanos nas suas mais diversas manifestações e algumas amenidades.


sábado, 4 de fevereiro de 2012

Mônica Waldvogel e sua 'saia justa no banheiro'




MÔNICA WALDVOGEL escreveu um artigo que foi publicado no Caderno Ela (O Globo) sobre a “Saia justa no banheiro” referindo-se ao recente caso da utilização do banheiro feminino pelo cartunista Laerte, que conforme é notoriamente sabido aproximadamente quatro anos se veste publicamente com roupas femininas.

No meu ponto de vista, logo no início do texto já há sinal daquilo que vem. Segundo a jornalista o assunto foi reportado da seguinte forma: “Esquecemos de falar da confusão que o Laerte arrumou ao usar o banheiro feminino num restaurante!”

Portanto, desde logo, o debate começou com a premissa que a confusão foi arrumada pelo Laerte. Ora, o responsável pela “confusão” não poderia ter sido o dono do bar ou a cliente que reclamou do Laerte?

Em seguida, quando Monica Waldvogel responde ao Dan Stulbach sobre sua opinião acerca da utilização do banheiro pelo cartunista mais uma vez ela deixou escapar seu pré-julgamento: “Precisa perguntar para as mulheres se elas concordam com isso”.

Puro sexismo.

Dan Stulbach imediatemente retrucou: “E para os homens também”.

Ambos deixaram de lembrar que a vontade de Laerte também teria que ser considerada, afinal é ele, sem desconsiderar os demais, um dos principais interessados. Porque esqueceram?!

Laerte possui orientação sexual bissexual e se auto designa como crossdresser. Até hoje entendi como crossdresser alguém que mantém sua vida social masculina, mas se veste eventualmente com roupas femininas para fins de satisfação erotico-fetichista. Laerte permanece 24 horas travestido com roupas femininas, até mesmo para dormir utiliza camisola, tendo doado todas as roupas masculinas, se depila e diz que adota o nome social de Sonia em seu circulo. Logo, se não soubesse acerca da sua manifestação pessoal de ser um crossdresser, acreditaria se tratar de uma travesti com orientação bissexual. Não quero entrar nestas questões, o que é ou diz ser pouco importa, pois estaria fazendo o mesmo que os demais, buscando rótulos para tentar colocá-lo numa prateleira que não foi escolhida por ele.

O ponto é o banheiro e como as pessoas tratam esta questão quando se trata de uma pessoa em situação transgênera.

Para Monica Waldvogel, se ela encontrasse o Laerte no banheiro do bar, não iria reclamar com o gerente, mas acrescenta: “Mas sou sincera: é porque se trata de Laerte e de sua Sônia, só por isso. Fosse um completo estranho, eu ficaria um tanto constrangida.”

Sem dúvida, cada um tem todo direito de sentir como quiser. Neste sentido, a jornalista também tem todo direito de ficar um tanto constrangida em saber que no cubículo reservado e fechado ao lado está uma travesti.


Me lembrando de um filme no qual uma negra era impedida de usar o banheiro da patroa branca, fico feliz em constatar que no texto ela não diz que ficaria constrangida em compartilhar o banheiro uma negra, deficiente ou idosa.


Cabe a cada um trabalhar os seus constrangimentos e saber o que fazer com eles.


Mas porque ela, que escreve uma matéria num jornal para todos e todas, só faz menção ao seu constrangimento e eventualmente das demais mulheres? Porque ela inicialmente se esqueceu dos homens? Pior, muitíssimo mais grave, o que a leva a esquecer da parte mais fragilizada nesta história toda, que é exatamente a pessoa travestida?


Será que o convite dela a reflexão sobre o tema não teria obrigatoriamente que lembrar que a travesti é a única que não possui um direito definido e claro como os demais cidadãos, sendo a única sem as garantias previstas pelas normas sociais heteronormativas impostas? Será que a saia justa não poderia ser da travesti que se sentiria muito constrangida em utilizar um banheiro que não fosse aquele que se acomodasse a sua identidade ?


Em pleno século XXI uma inteligente jornalista conduzir publicamente a questão à genitália do indivíduo, e sob ponto de vista de seu constrangimento pessoal, me parece raso e até leviano.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Fina Estampa da Homofobia


Outro dia li que “Fina Estampa” voltou a servir ao autor, Aguinaldo Silva, como veiculo para fazer propaganda de si mesmo, por conta de um hotel ou restaurante no qual seria sócio. Faz sentido. É um autor que na falta do bom gosto, extremamente apelativo e no afã de audiência se vale do merchandise social fundamentalista, atacando e esteriotipando os homossexuais.

Incrível que esta pessoa de idade provecta, pasmem, muitas décadas atrás já encenou lutar pelos direitos de gays no jornal "Lampião da Esquina". Parece que esta não se trata da primeira pernada dada por ele. Segundo se tem notícias, aquele autor brilhante que sabia escrever com qualidade e contéudo, refiro-me a Dias Gomes, conheceu semelhante faceta de Aguinaldo Silva e teria morrido sem jamais voltar a falar com mesmo.

Nem sei dizer o que é pior nessa obra de última categoria. É um remake retalhado de várias outras do mesmo autor. Só posso chegar a conclusão que possivelmente reflete a vida de quem é supostamente ridículo, por natureza. Aliás, "estampa" no dicionário significa "reprodução, espelho".

Vira e mexe, a tal personagem, mordomo "CRO", um capacho, bem afetado, é tratada no feminino ou com apelidos absolutamente desrespeitosos e depreciativos, tal qual não era incomum no tratamento de outrora quando, para gays, o politicamente correto ainda não se aplicava.

Desafio este senhor da boa idade, autor de folhetins popularesco, a dar o mesmo tratamento e adjetivos dispensados ao seu personagem gay para um personagem negro ou para um personagem evangélico em sua atual novela, mantendo a mesma impunidade. Ele faz isto porque sabe que pisotear homossexuais nesta terra, até hoje, não dá em nada. Essa novela tem as cores fortes da covardia. Não me espantará se, consequentemente, passar a ter cores de sangue nas avenidas paulistas da vida.

Antigamente, bem antigamente, era frequente homossexuais usarem hobby para tentar se sentir 'mulherzinha'. Gays com roupas justinhas, lencinhos no pescoço, que andavam com cachorrinhos eram tratados da forma retratada nessa coisa. Enfim, era tudo aquilo que os pais não queriam para seus filhos que, quando descobriam a orientação sexual do filho, com repulsa, imaginavam que se homens, transvestir-se-iam de mulheres e sempre pagariam ou sustentariam um homem para obter sexo, e se mulheres, virariam mulher macho. Exatamente o jeitinho de ser desta novela, onde o "viadinho" é uma fêmea torta, longe de ser uma digna transgênera, e a personagem principal, apesar de hetero, aparentava ser mulher machuda.

Óbvio que existem homossexuais masculino efeminado ou feminina masculinizada, os quais não podem ser renegados e merecem evidente respeito. A crítica que se faz é a revoltante constatação que este autor, em especial, parece que propositadamente gosta de mostrar a homossexualidade como algo bizarro, diferente e ridicularizado. Basta lembrar que antes deste CRO, já tivemos em 'Suave Veneno' os afetados e avacalhados Ualber e seu empregado Edilberto (alvo sempre de chacotas), assim como na 'Senhora do Destino' o ameneirado carnavalesco Ubiracy, ou seja, repetições do mesmo tema, sempre com o mesmo escárnio tendo como alvo gays.

Dá a impressão que o autor da novela se congelou numa época determinada da sua vida, onde há mais de quarenta anos atrás, os guetos frequentados eram velhas boates nas quais, algumas vezes, muitas lésbicas se comportavam como cavalheiros e a maioria dos gays como gazelas afetadas.

A sensação que tenho é que o autor, já cansado, buscou em sua experiência pessoal transmitir na novela seus valores, através de seus personagens 'esquisitos'.

Crianças e adolescentes homossexuais com traços afeminados que morem pelo interior do país são as maiores vítimas. Já para os homofóbicos essa novelinha é uma festa. Todo preconceituoso quer encontrar apoio para justificar, de alguma maneira, o seu preconceito e sua crença de pretensa superioridade. Os coleguinhas da escola, pior, os próprios familiares destes menores, com pouco acesso à informação e à cultura, se valerão de uma personagem ridícula e grotesca para torturá-las, dia a dia.

De uma forma geral, acho detestável considerar que uma mente aparentemente doentinha, que parece ter contribuído escrevendo alguns trechos da bíblia, me inspire a piedade ao se fantasiar com o que há de pior do mal gosto, seja na aparência daquilo que vemos e ou na demonstração da seletiva mentalidade discriminadora, negando-se a se respeitar e a respeitar outro. Mas são assim os personagens, doentes e ultrapassados.

Esclareça-se, a idade do autor não explica a razão de sua forma de ser e pensar que induz concluir se encontrar cada vez mais retrograda. As pessoas idosas merecem respeito, até porque sabem o valor que esta palavra possui.

O engraçado é que se alguém diz a verdade para o autor da novela, este se faz de vitima e indignado, porque, segundo ele, os gays melindrados não teriam alcançado o seu profundo conhecimento revelador que “cada um é único”, como se com isto estivesse desvendando o Segredo de Fátima e justificasse a irresponsabilidade de propagar a possível incitação de homofóbicos mais atrevidos, resultando em agressões verbais e físicas aos homossexuais.

Sim, porque se alguém humilhar um gay como fazem os personagens e até figurantes desta novela tão impunemente, aquele estará sendo jurídica e criminalmente ofendido na sua honra, quanto mais se a vítima levar uma surra na praia porque os seus frequentadores heterossexuais considerarem que a orientação sexual homossexual seja suficiente para justificar tal prática.

Tudo bem, cada um é cada um. Se até hoje ele foi e é chamado por tais adjetivos como o seu personagem, não me cabe julgar. Até posso, por gentileza, chamá-lo da mesma forma por carinho. Mas se fazer de vítima não dá. Lamentável este vitimismo de Aguinaldinho ou seja lá como ele gosta de ser chamado pelas pessoas que passam por ele na rua ou praia, quando passeia com seus cachorrinhos, se tiver.

De qualquer forma, pelo menos ele é coerente. Fornece modelo de comportamento para que homofóbicos isultem os homossexuais de veado, bichona, e outros adjetivos, sempre com forte carga de humilhação, e, em sua lógica, compreensivamente, recrimine com veemência que um ator de seu personagem seja confundido como homossexual, porque, no seu entender, é prejudicial. Sendo ele um homossexual assumido, fico tentando imaginar como se enxerga e vive.

Enfim, o tal personagem CRO da novela ‘Fina Estampa’ é a cafonalha repugnante do momento que faz sucesso pelo escárnio e por ser um pária. Parece que foi educado por aquelas mariconas solteironas, solitárias, de idade avançada que pela cara não se distingue mais se se trata de uma vó ou vô, que mora numa casa cheio de bibelôs e estatuazinhas pretensiosas numa estante, usam lencinhos e echarpes, e para seduzir uma companhia apelam para o dinheiro, com muito discurso de poder e marcas ricas e famosas, apenas para esconder a sua própria miséria.

Infelizmente, os remédios sociais e jurídicos existentes não tem dado conta do grande mal que é a homofobia, mas existem remédios fabricados por grandes laboratórios farmacêuticos que poderiam ajudar muita gente que não acredita em terapia a se tratar.

Essa novela é prova que o tempo pode ser aproveitado com coisas realmente muito melhores, mais saudáveis e ricas culturalmente e que a aposentadoria de algumas pessoas pode representar um grande ganho social.

Ah, saudades da última novela de Ricardo Linhares e Gilberto Braga.

domingo, 3 de abril de 2011

DZI CROQUETTES, gays e revolucionários

Ninguém questiona como é bom lembrar do Ney Matogrosso em Secos & Molhados, com aquelas roupas inusitadas, maquiagens alucinantes, dança sensual, cantando o famoso Vira, no “disco” que tinha na capa as cabeças do grupo numa bandeja sendo servidas numa mesa.

A homofobia já corria solta naquela época (1973). Dentro da minha casa a homossexualidade era algo explicitamente inaceitável, e mesmo ainda criança me recordo que, os mais machões dos meus tios e até meu avô, simplesmente adoravam o Ney Matogrosso e toda sua extravagância, apesar de toda carga de sexualidade dúbia, onde se escancarava uma pulsão sexual que jogava na cara uma sexualidade andrógina que quebrava todos os conceitos de macho alfa.

As Frenéticas surgiram depois, mas com o mesmo papel revolucionário, versão feminina.

Ontem tive a agradável surpresa de assistir no programa “Por toda a minha Vida”, da Rede Globo, a justíssima homenagem prestada a elas, “As Frenéticas”.

Todos as conhecem, mesmo as novas gerações. Adorei conhecer um pouco mais de toda a história. Aquela frenesi toda de uma época que marcou as meias multicoloridas. Sensação boa indiscutivelmente renovada.

Por conta disto quis porque quis manter este astral meio nostálgico de uma alegria única e revolucionária. Lembrei das chamadas no Canal Brasil que mencionava o documentário sobre a trupe DZI CROQUETTES, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, que até hoje não havia assistido.

Sabe aquele elo que faltava e que faz o circulo se fechar?

Pois é, várias fichas caíram. Encontrei a fonte criadora.

A versão masculina, Secos e Molhados e, a feminina, As Frenéticas, são descendentes legítimos dos DZI CROQUETTES, versão absolutamente gay.

A revolução cultural que veio para atuar como antirrevolução política da ditadura foi nascida e criada, no Rio de Janeiro, por artistas (no sentido literal da palavra) gays que formaram o grupo DZI CROQUETTES, em 1972.

O grupo exalava sensualidade, maquiavam exageradamente e quando não estavam quase completamente nus (só de tapa sexo), vestiam roupas quase que absolutamente femininas com alguns detalhes masculinos. A dança era maravilhosa, a teatralização nova, o grupo era absolutamente original e de uma criatividade impar.

Até que me provem o contrário, no Brasil, DZI CROQUETTES criou a notoriedade do que hoje conhecemos como Drag Queen. O povo se assombrava porque não podiam catalogá-los como travestis, pois eram homens muito peludos, boa parte com bigode ou barba, que se expressavam e se vestiam de forma feminina, sem abrir mão do masculino.

No universo teatral pode se dizer que surge com eles o que em seguida foi designado como teatro besteirol.

DZI CROQUETTES também foram aqueles que criaram o que vimos no grupo Secos e Molhados, música, dança, sensualidade e extravagância andrógina.

É deles também todo aquele colorido, fantasias, formação de grupo social identidário que se inspiraram as FRENETICAS.

A revolução cultural, reconhecida no Seco e Molhados que tornou pública e confrontou a sexualidade do macho, assim também identificado nas Frenéticas pelas “despudoradas” mulheres que não correspondiam exatamente ao modelo da mulherzinha de um universo machista, é obra e criação deste grupo de homossexuais e bissexuais que se uniram para desfigurar e quebrar com todo aquele sistema imposto pela sociedade heterossexual, machista e ditatorial (pós 1968).

O próprio documentário faz reconhecer o papel único dessa trupe de atores, dançarinos, comediantes e cantores para visibilidade, junto ao cenário social e político, para os homossexuais brasileiros. Gilberto Gil frisa que teria sido a primeira grande manifestação gay no Brasil, como manifestação artística com um discurso político.

É de um dos integrantes (Wagner, a “mãe” do grupo) a famosa frase “só o amor constrói” e quando interpelado pelo colega (Benedicto Lacerda, a Old) querendo lhe persuadir do enfrentamento pela luta armada, foi dele também o convencimento que muito melhor que utilizar a arma seria a luta através da arte.

Eles não levantaram bandeiras, distribuíram panfletos e nem foram as ruas falarem palavras de ordem, mas foram mais militantes pela luta de nossos direitos que muitos destes que se autointitulam como os verdadeiros "militantes", por serem orgânicos de carteirinha e PTA.

O papel deles, naquela época, foi romper com a imagem que gay é digno de pena ou inferiores, descaracterizar os preconceitos daquilo que significaria o macho alfa ou o homem mulherzinha. Dzi Croquettes subverteram a ordem.

Eles ofereceram a reflexão. Mostraram que eram mais “machos” que muitos outros heteros para enfrentar toda a ditadura militar através da expressão de sua arte, se fizeram presentes e visíveis, angariaram admiração e respeito de todo um grande público e, principalmente, formaram opinião.

Eles vieram, expuseram e disseram, por uma expressão criativa única, o “não” ao preconceito! E foram comprovadamente exemplos seguidos, esplendidamente seguidos. A homossexualidade foi um dos pontos marcantes nos 13 integrantes, aliás, quase a totalidade possuía nome artístico feminino.

No documentário, Ciro Barcelos (Silinha), um dos integrantes do DZI, confidencia a confusão das relações existentes dentro do grupo, Lennie era apaixonado por ele, que por sua vez, apesar de viver com Lennie era apaixonado pelo Rogério. Claudio Tovar era apaixonado pelo Claudio Gaya e este pelo Wagner e aí vai... Fora isto, ainda existiam algumas namoradas que causavam ciúmes, como Roberto que namorava Elke Maravilha, ainda que soubesse que Roberto era gay...

Estes DZI CROQUETTES, formado por homossexuais e bissexuais, nos representam muito bem até hoje, inclusive, estatisticamente. Dos referidos 13 (treze) integrantes do grupo DZI CROQUETTES, 08 (oito) hoje estão mortos, 01 (um) por morte natural, 04 (quatro) deles em decorrência do vírus da AIDS e, não surpreendentemente, 03 (três) em conseqüência de assassinatos motivados pela homofobia.

Qual a memória e o registro da importância deste grupo na concepção cultural, política e de formação de opinião pela população brasileira, em especial a LGBT? Vergonha.

A todos os eternos DZI CROQUETTES, criativos e revolucionários, minhas homenagens.

sábado, 26 de março de 2011

Policiais se fazem invisíveis para gays em São Paulo



Foi largamente noticiado no portal do Globo.com, SPTV e Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão, entre outras que, Guilherme Augusto Rodrigues (foto ao lado), de 23 anos, professor e homossexual, foi agredido por uma suposta quadrilha numa região de São Paulo conhecida pela reiterada pratica de ações homofóbicas.

Grave? Gravíssimo, evidente.

Mas o que mais me chamou atenção sequer foi a agressão física sofrida pela vítima Guilherme Rodrigues, que soube agir e procurar seus direitos.

O tratamento dispensado pela polícia paulista conseguiu ser muito mais chocante. E o apavorante é que sobre esta polícia ninguém joga o devido canhão de luz.

Segundo consta na reportagem no Globo, os quatro rapazes continuaram ameaçando ao Guilherme mesmo depois que um carro da polícia parou. Portanto, o FLAGRANTE DELITO foi presenciado pela polícia militar.

No entanto, o mais grave estava por vir.

Mesmo Guilherme tendo relatado para a policial militar o ocorrido (além daquilo que foi presenciado pela mesma e testemunha presente), e manifestado sua firme intenção de fazer um registro policial, a dita policial tentou convencê-lo A NÃO FAZER O BOLETIM DA OCORRÊNCIA!

Um crime, uma vítima, uma autoridade policial e uma tentativa de não ser realizada a ocorrência.

Mas não parou por aí.

Nas exatas palavras da notícia, todos seguiram para delegacia policial e lá:

No 4º DP, na Consolação, região central de São Paulo, a mesma policial, de acordo com Rodrigues, afirmou aos funcionários do plantão que os quatro agressores também iriam registrar um boletim de ocorrência. “Ela disse que eu dei em cima deles e que eles também teriam direito de fazer um boletim. Só mudaram de ideia quando um funcionário do posto testemunhou a meu favor”, disse. Os quatro rapazes foram indiciados por injúria, ameaça e lesão corporal.”

Como assim?

A policial militar - que não queria que fosse realizado o registro policial pela vítima homossexual -, quis convencer aos plantonistas da 4ª. Delegacia Policial que os agressores tinham direito a também realizarem uma ocorrência?!

E a ocorrência seria motivada pelo inovado CRIME de uma suposta “cantada”?! Era isso que a policial queria?

A vítima ser agredida fisicamente (de forma inequívoca) por um grupo de quatro homens não deveria ser registrado, mas a pressuposição de cantada (não comprovada) de um gay que teria supostamente cantado quatro homofobicos, portanto, definitivamente louco, mereceria ser considerado, enquadrado como pretenso ato criminoso (?!) e até ser registrado na aludida delegacia?!

Me acudam!

Quando finalmente pensamos que o show de barbaridades havia chegado ao máximo, nova pérola é revelada.

A Delegada Margarette Barreto, titular da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil, investiga se o caso se trata de homofobia, e segundo ela:

"Estamos investigando, mas pelas imagens parece mais uma briga", disse aos jornalistas do Globo numa aparente desqualificação de crime motivado pelo preconceito.

Nesta altura do campeonato uma delegada especializada em delitos de intolerância afirmar que está inclinada em considerar uma “briga” o fato é de se sair correndo três dias e três noites.

Nós, meros espectadores do SPTV e R7, que não somos autoridade policial, não somos especializados em crimes de intolerância, não temos o dever legal de agir, não somos experts na definição de condutas criminosas, e nem temos que ter a máximo cautela para nos pronunciarmos sobre este fato, tivemos a oportunidade de ouvir diretamente do frentista Vanilson da Silva, funcionário do posto de gasolina, através da entrevista dada a televisão, não só a confirmação da denúncia da vítima homossexual, como ainda que lá é comum entrar outras vítimas já ensanguentadas.


Video Jornal Nacional

Video Notícias R7


Ora, se jornalistas cumprem seu papel investigativo e trazem a notícia, o mínimo que se pode esperar é que uma delegacia especializada faça o ‘mesmo’, já que ‘melhor’ parece difícil.

O caso é sério.

Agora começo a entender a razão pela qual têm sido noticiados tantos crimes de violência contra homossexuais numa mesma região de São Paulo.

Infelizmente, não posso dizer que se trata de um caso de polícia, pois como vemos, não aparenta se tratar de local que prime pela segurança pública, se as vítimas forem homossexuais.

É inimaginável o penoso trabalho que deve ter Dimitri Sales, Coordenador de Políticas para Diversidade Sexual do Estado de São Paulo, que aliás parece já ter enfrentado problemas com a polícia de Santo André, tempos atrás.

Mas isto nos traz à luz que não há como combater a homofobia se quem estiver a cargo desta luta já revela em seus atos preconceito, dando tratamento discriminatório a um homossexual frente ao seu algoz.

Ler esta notícia envolvendo pessoas que têm um dever especial de agir me conduz, imediatamente, a lembrança de alguns crimes previstos no código penal. No caso, a suposta tentativa de crime de prevaricação e a eventual possível configuração do crime de condescendência criminosa dos superiores hierárquicos daquela policial militar que tomaram conhecimento deste fato levado a público.

No código penal estão assim previstos:

PREVARICAÇÃO
Art. 319. Retardar ... indevidamente, ato de ofício, ... para satisfazer interesse ou sentimento pessoal;

CONDESCENDÊNCIA CRIMINOSA
Art. 320. Deixar o funcionário, por indulgência, de responsabilizar subordinado que cometeu infração no exercício do cargo ou, quando lhe falte competência, não levar o fato ao conhecimento da autoridade competente;

Não é demais explicar que a “prevaricação” é a infidelidade ao dever do ofício, à função exercida. É o descumprimento das obrigações que lhe são inerentes, movido o agente por sentimentos próprios, entre eles, o sentimento de repulsa ou desprezo aos LGBTs.

Já por condescendência criminosa entende-se o ato pelo qual o funcionário público deixa de responsabilizar seu subordinado que cometeu infração no exercício do cargo ou quando lhe faltar atribuição legal, deixe de noticiar a autoridade competente, seja por benevolência ou misericórdia de seu subalterno.

Não adianta lutar para que o Poder Legislativo crie leis específicas para proteger da violência a população LGBT se as autoridades policiais responsáveis tentam se escusar em cumprir seu dever de realizar o boletim de ocorrência de um possível crime (de uma lei genérica). Tampouco adianta uma delegacia especializada na intolerância, se prima faciese mostra bastante tolerante com a intolerância alheia.

Torço para que o casal homossexual que Guilherme Rodrigues viu ser atacado pelo grupo, levando-o a ser perseguido e agredido, apareça e cumpra seu papel de cidadania, sob pena de contribuir para que este sistema da injustiça vença e tenhamos que dar razão aquela policial que tentou dissuadir a vítima de realizar a ocorrência policial.

A luta não deve se cingir que os agressores de Guilherme Rodrigues respondam pelos seus atos, mas, especialmente, que aqueles que deveriam zelar pela segurança pública, garantir a incolumidade física do cidadão e exercer seu dever de polícia, praticando seus atos de ofício, sejam devidamente processados e todos os demais sejam advertidos e devidamente treinados a se comportarem como esperado. Não é favor.


terça-feira, 8 de março de 2011

Momento único, eu e Lea T no chão, e ela declarando: "Viva a Diversidade!"


Tive um momento único, conheci pessoalmente Lea T. Me apresentei, disse o quanto a admirava e que lutava contra o preconceito e espontaneamente obtive dela a atenção, carinho e momento de intimidade, ali sentado ao chão do camarote da Brahma, que pode se resumir numa frase que a mesma disse e é celebrada por todos nós: “Viva a Diversidade!”

Não foi pouco. Nada pouco. Naquele camarote existe um pequeno espaço para os Vips dos Vips, terem o mínimo de privacidade. Este era o espaço dedicado a ela, ao Will.I.Am, do Black Eyed Peãs, entre outras raríssimas personalidades. Mas Lea T não quis ficar lá, enfrentou a imensidade de jornalistas e se deu o direito de se misturar aos demais.

Marquei bobeira, mesmo sabendo que ela voltaria hoje para Europa, deveria ter tentado pedir que tirasse uma foto com a camisa da campanha: “Rio, Carnaval sem preconceito”, organizado pela Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio.

Ver uma transexual no topo, não tem preço.

O sucesso de uma profissional, seja na área que for, se dá pelo reconhecimento de seu talento.

Algumas pessoas são reconhecidas como talento-celebridade, dentro de seu país. Outras, mais raras, vão muito além e decorrente de seu trabalho se tornam celebridades mundiais.

No Brasil temos alguns expoentes, Carmem Miranda, Pelé, Ronaldo, Gisele Bündchen, Paulo Coelho, Lula, entre outros.

Recentemente, desponta no mundo mais uma, justamente ela, a top model, LÉA T.

Léa T faz sucesso no mundo inteiro, como a modelo transexual.

Não há qualquer desmerecimento ao ser incluído no seu currículo de modelo internacional o fato de ser uma transexual. Muito pelo contrário.

Se você fizer o exercício mental de extrair a fama conquista por Léa T em seu trabalho e considerá-la apenas como uma “transexual brasileira” entenderá com maior clareza a grandeza da conquista desta mulher.

O que a faz especial não é exatamente sua transexualidade, mas o fato de ter conquistado um espaço único se comparada a qualquer aspirante a modelo nacional ou internacional, com histórico dito normal que teve acesso e apoio da família e da sociedade.

As transexuais, de uma forma geral, estão muito expostas à discriminação, chacota e humilhação, alimentadas pela ignorância e preconceito.

A visão do povo brasileiro acerca das transexuais ainda está muito ligada a imagem da prostituição de rua e da “aberração”.

Eis que surge Léa T, que trabalha como modelo e se assume transexual.

Ainda que relevante, a maior importância não está restrita a visão do povo que passa a procurar entender o que significa a transexualidade e, consequentemente, passa respeitar a figura particular desta transexual que deu certo. Na minha visão, o melhor do sucesso da Lea T é o fato dela representar a figura de "modelo" de comportamento e principalmente de autoestima de tantas outras transexuais.

Outras transexuais podem enxergar através da Léa T a possibilidade de um futuro digno, independente da extensão do sucesso que venham conseguir.

A própria Lea T, na entrevista dada ao Fantástico, da Rede Globo, se referindo ao preconceito, mostrou a realidade vivenciada pelas amigas transexuais: “Você não vê transexual trabalhando em nenhum lugar. Você vê transexual só na rua se prostituindo. Para mim, pensar que o meu final teria que ser como o delas era muito duro”, disse.

A realidade pode ser diferente. Lea T prova isto a todas as transexuais e ainda ensina aos demais a viver com a diversidade.

É imprescindível que surjam outras pessoas como Lea T e esclareça a população que não se trata de uma “opção sexual”. Nenhum LGBT opta por escolher uma vida cheia de preconceito e discriminação.

No caso das travestis e transexuais, com sério agravante, uma vez que é diagnosticado como transtorno de identidade de gênero.

Lea T lembra isto e chama atenção de todos ao afirmar que: “Eu sou penalizada em tudo. Não é uma coisa gostosa. Você tem que levar para o lado do transexualismo em si: remédio, terapias, operações e preconceito”.

Uma transexual sofre no corpo a necessidade da mutilação, na alma a dor da discriminação e ainda são extremamente castigadas por uma sociedade ignorante e hostil. Enfretam um leão por dia.
A conquista dela não foi igual as demais celebridades. Teve que ser muito maior.

A velha máxima aqui se aplica as transexuais: Elas podem!

Como é bom dizer isto.

Tenho um tremendo orgulho de Lea T e repito com ela: “Viva a diversidade!”.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Em menos de 01 mês da criação a Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio de Janeiro mostra a que veio!

Carlos Tufvesson - Coordenador (acima), Flávia Brazil, Carlos Alexandre N. Lima, Sérgio Camargo e João Felipe Toledo - Assessores (abaixo) no Palácio da Cidade do Rio de Janeiro
Por motivo pessoal não quis promover a Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (CEDS – RIO) ligada diretamente ao Gabinete do Prefeito Eduardo Paes da Cidade do Rio de Janeiro.

O motivo é óbvio. Fui convidado pelo seu Coordenador, Carlos Tufvesson, para participar da seleta equipe por ele formada. Estou assessor jurídico da CEDS-RIO.

Mas tudo tem limite, o órgão é público e de interesse a ser compartilhado, portanto, não dá para permanecer em silêncio.

E tenho dever de fazer isto, até porque devo explicações aos seguidores deste blog acerca da repentina diminuída de postagens.

E a Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual se faz notícia.

Carlos Tufvesson me assusta. Pensamos parecidos, mas somos extremamente diferentes. Ele é superativo, faz dez mil coisas ao mesmo tempo. É um homem de muita ação. Acompanhar seus passos dá canseira, mas o ideal de uma vida com menos preconceitos move e é partilhado por todos os integrantes da Coordenadoria.

Sua criação, em 03 de fevereiro, pelo Prefeito Eduardo Paes já foi por si só notícia espalhada aos quatro ventos pelo Brasil. Normal, considerando que a cidade do Rio de Janeiro foi escolhida no ano anterior como o principal ponto turístico gay do mundo.

Imediatamente depois ocorre o fato da suposta discriminação sofrida por um casal de homossexuais no Cinema Roxy, em Copacabana, aparentemente praticada por um segurança. O tema foi notícias em todos os jornais levando para a recente criada Coordenadoria todos os canhões de luzes. A resposta foi imediata, com a denúncia formal, o primeiro processo administrativo na Prefeitura do RJ contra um estabelecimento comercial sob justificativa homofóbica foi instaurado para exame na recém criada Coordenadoria.

Mesmo montando um órgão novo, o que é muito complexo em termos tecnicos e práticos, a Coordenadoria Especial mobilizou toda a Prefeitura, com total apoio do Prefeito Eduardo Paes, para atuar neste Carnaval.

Através de uma grande mobilização provocada pelo Carlos Tufvesson, com a colaboração e co-participação das Secretarias de Saúde, Assistência Social, Turismo e Guarda Municipal foi criado e lançado o projeto: "Rio: Carnaval sem preconceito".

Ninguém pode imaginar a loucura que foi a concretização, em tempo recorde, das inúmeras ações.

O projeto servirá para orientar a todos os cidadãos que existe uma Lei Municipal 2475/96 e um Decreto 33033/2008 que garante direitos aos cariocas e turistas LGBTs contra o preconceito e a discriminação. Mas a Coordenadoria foi além, colocou na praça a luta de todos os mais diversos tipos de preconceito (religioso, racial, de gênero, por orientação sexual, idoso, deficiente físico, entre outros), as formas de denunciá-lo e os direitos do cidadão.

Folhetos explicativos bilíngues, em português e inglês, sobre saúde (formas de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, explicando com clareza, sobre cada uma delas), e o outro sobre os direitos garantidos às lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, dizendo com todas as letras que a demonstração de afeto público, o carinho, o abraço e o beijo do casal gay é um direito garantido na cidade do Rio de Janeiro. Estes folhetos serão distribuídos por toda a cidade durante os dias de folia, em blocos, praias e pontos turísticos.

Um parêntese, porque sem dúvida é necessário. Não é demais lembrar, casal gay pode beijar na boca ou fazer qualquer outra demonstração de afeto público. É um direito, tal como para um casal heterossexual. Mas não se pode confundir isto com excessos. Sexo, mesmo aquela fase inicial de carícias mais audaciosas, se pratica entre quatro paredes. Atos Lidibinosos expostos em público é CRIME e é punido pela lei.

Entre o sábado de Carnaval e a quarta-feira de cinzas, um contêiner da CEDS ficará instalado na praça General Osório, em Ipanema (zona Sul), local onde se concentra uma multidão de LGBT para blocos, com intuito de auxiliar os foliões em qualquer constrangimento gerado pelo preconceito. Assistentes sociais e pedagogos tirarão dúvidas dos cidadãos e os encaminharão para efetivarem as possíveis denúncias de agressão aos órgãos competentes. É um projeto piloto que a Coordenadoria pretende se estender junto as comunidades carentes.

A CEDS neste pequeno lapso temporal realizou encontros e capacitações com a Guarda Municipal, Assistentes Sociais e Pedagogos, para explicar a Lei Municipal que garante os direitos dos cariocas e turistas LGBTs, mas não deixando de lembrar, em momento algum, dos demais alvos da discriminação.

A campanha tomou proporção grandiosa. Incluirá ainda um vídeo em que “anônimos” e celebridades como o ator Edson Celulari, a cantora Elza Soares, a coreografa Débora Colker e a campeã olímpica Jackie Silva, entre outros, pedem o fim do preconceito. Além de passar na web também foi acolhida por uma rede de televisão que graciosamente a transmitirá.


Justiça seja feita, os depoimentos e as reproduções dos vídeos institucionais realizados por celebridades nacionais e internacionais foram gratuitos, por amor a civilidade e respeito humano, com imensa repercussão da mídia escrita e na web, nacional e em breve na internacional, para formar opinião contra o preconceito.

A panfletagem em favor da conscientização de direitos destinados aos LGBTs tem por premissa a conscientização de um direito conferido pela cidade do Rio de Janeiro desconhecida pelo cidadão carioca e turistas, e o panfleto com conteúdo de prevenção da saúde pública, informa aos interessados e também evita eventuais despesas públicas de hospitais, fruto de uma inconseqüência ou desinformação.

Isso tudo em menos de 1 mês de existência, pouca estrutura e muita vontade.

Por estes motivos estou orgulhoso desta Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Parlamentares EVANGELICOS demonstram ODIO e PERSEGUEM explicitamente aos GAYS BRASILEIROS no Congresso Nacional


O título aparenta ser descomedido, mas para ser realista não é possível sintetizar de outra forma.

Como explicar que apenas parlamentares evangélicos, contando explicitamente com sua bancada de políticos que pertence a frente parlamentar evangélica, persigam os homossexuais no intuito de retirar um direito reconhecido, pelo Poder Executivo, exclusivamente a este segmento da sociedade ?

Numa sociedade justa a perseguição a evangélicos, felizmente, é considerado um crime gravíssimo, mas qual a consequência quando ocorre o contrário e estes que figuram como perseguidores? Nenhuma.

Se a intolerância for contra os homossexuais, não há lei que os impeçam.

Eles estão garantidos por lei que não podem sofrer discriminação, e, por outro lado, estão livres, pela ausência de lei, para perseguirem homossexuais.

Uma coisa é a legítima defesa de seus dogmas religiosos e considerarem pecado a prática homossexual (mediante o seu entendimento bíblico), outra bem diferente é ultrapassarem os muros de suas igrejas, se instalarem no poder público para, tomados pelo poder, se valerem do cargo ocupado para perseguirem explicitamente um segmento da sociedade brasileira que não seguem suas doutrinas religiosas.

A notícia que circula no congresso em foco é que um Deputado Federal da Assembleia de Deus tenta derrubar portaria que permite a homossexuais declararem companheiros como dependentesa, conforme se transcreve:

“Nesta sexta-feira (25), o deputado Ronaldo Fonseca (PR-DF) entrará em contato com o presidente da Frente Parlamentar Evangélica no Congresso, deputado João Campos (PSDB-GO). Eles vão discutir medidas para cassar a possibilidade prevista na entrega das declarações de IR, que começa daqui a quatro dias.

Fonseca diz que vai tomar uma das três medidas sugeridas na nota: ajuizar uma ação popular contra a permissão de dedução tributária, apresentar um projeto de decreto legislativo para suspender a medida da Receita ou pedir que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, compareça à Câmara para prestar explicações.

João Campos afirmou que vai conversar antes com o colega para avaliar se a Frente Evangélica vai tomar alguma medida conjunta. Por sua vez, Fonseca tem certeza de que parlamentares evangélicos e até católicos vão apoiar qualquer medida para barrar a inclusão de homossexuais como dependentes nas declarações do Imposto de Renda.”


No dicionário Hoaiss o significado da palavra “perseguição” é a “intolerância contra algum conjunto, organismo ou grupo social

Pelo que se extrai da notícia acima, o presidente da Frente Parlamentar Evangélica (João Campos do PSDB-GO) se dispôs a discutir com o deputado que integra a referida Frente religiosa (Ronaldo Fonseca do PR-DF) medidas para cassar a possibilidade das declarações em conjunto de IR de casais homossexuais.

Não estamos falando do direito ao livre pensamento e convicções religiosas, nem de uma mera posição contrária aos interesses de gays. Aqui o que se constata é uma ação conjunta, dentro do Congresso Nacional, de um determinado segmento religioso que não se limita a desejar que não sejam conferidos direitos aos cidadãos LGBT, mas que ainda segue no encalço destes para retirar minguado direito, por obvia intolerância, sob pretexto da fundamentos normativos.

Portanto, é exatamente aquela definição do termo “perseguição”. Aparentemente Parlamentares Evangélicos perseguindo Homossexuais e discutindo a possibilidade de todos os demais políticos evangélicos, e até eventuais “católicos” (logo, igualmente religiosos), participarem em conjunto, para o mesmo fim, contra uma minoria social especifica, os homossexuais.

Se a iniciativa da aludida Frente Parlamentar se concretizar não resta outra alternativa senão buscar socorro nos organismos de direitos humanos internacionais e em seus tribunais.

Não dá para ficar de braços cruzados.

Esse fato noticiado revela que não se trata apenas da discussão da legalidade de um direito dos homossexuais. O olho do furacão é algo muito maior e bem mais grave.

Há tempo eles se unem e publicamente atuam de forma frontal contra qualquer direito que favoreça LGBTs. Além da declaração conjunto do Imposto de Renda, também são contra todas as pretensões desta comunidade específica, seja a criminalização da homofobia, adoção, a união estável, o casamento ou qualquer outro direito que não seja a "conversão do gay", e recentemente, apesar de já se dizerem contra, solicitaram em nome da Frente Parlamentar Evangélica kit contra a homofobia do MEC para "avaliar".

Os homossexuais já fizeram parte do grupo de perseguidos no período de Hitler, na Alemanha. Em pleno 2011, num país em manifesto desenvolvimento e cheio de diversidade como o Brasil, se não é crime previsto no Código Penal (porque eles lutam para que não passe o PLC 122 que pretende criminalizar a discriminação aos homossexuais), ao menos a conduta da perseguição ainda é moralmente intolerável, além de ser um crime universal contra os direitos humanos.

O Congresso Nacional é responsável pelos atos e omissões que ocorrem no mesmo. Não pode compactuar com a tergiversação de religiosos travestidos de políticos. Os congressistas têm obrigação de saber que o estado é laico e que, para normas constitucionais e universais, os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e igualdade são prioridades, inclusive, acima de princípios importantíssimos como do livre pensamento e da liberdade religiosa. Estes últimos princípios têm limites, e aqueles, à priori, não.


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