O presente blog se propõe a reflexão sobre os Direitos Humanos nas suas mais diversas manifestações e algumas amenidades.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Federico García Lorca: "Ele fez mais dano com a caneta que outros fizeram com a arma"


 “Olha à direita e à esquerda do tempo, e que o teu coração aprenda a estar tranquilo"

Duas frases ajudam a entender Lorca.

"Ele fez mais dano com a caneta que outros fizeram com a arma" foi uma frase dita por terceiros que foi perpetuada como umas das melhores definições daquilo que Lorca representou para as pessoas à sua época.

Já a segunda, “olha à direita e à esquerda do tempo, e que o teu coração aprenda a estar tranquilo”, proferida por ele próprio, é um pensamento que transmite paz, sugere paciência e equilíbrio, vindo de um poeta imortalizado pela história que, contradizendo a mensagem, possuía sentimentos fortes e posições extremamente firmes, que usou toda sua genialidade e influência para ser um ativista e revolucionário em seu país, o que o levou ao seu próprio assassinato.

No entanto, este mesmo pensamento é perfeitamente condizente com a postura que adotou durante sua vida em relação na maneira pela qual convivia com sua homossexualidade. Esta mensagem era, antes de tudo, para ele próprio amansar seu coração.

Apesar do seu perfil de militância, nunca ergueu 'bandeira' em favor da cidadania LGBT, apesar de defender em seus textos as minorias (inclusive, homossexual) e jamais ter criado relações heterossexuais de fachada para manter as aparências, como era comum aquela época.

Federico Garcia Lorca é um ícone homossexual muito mais por conta da sua história pessoal que pelas suas performances políticas e imensa genialidade literária. Ele rarissimamente atuou de maneira intencional para ser, mas também não fez nada para deixar de ser.

Neste contexto, justamente por conta de sua história de vida, Federico Lorca se aproxima muito mais de cada um de nós. Sua história pessoal é fascinante. Sua sexualidade, mesmo evidenciada pela sua fama e oprimida pela sociedade machista e intolerante, acabou chamando tanta atenção quanto os seus grandes feitos. É essa história que realmente interessa aqui.

Mas para isto, temos que saber um pouco da vida de Federico Garcia Lorca, quem era, onde nasceu, em que tempo viveu e quem eram seus amigos para entendermos o quanto relevante foi sua vida pessoal.

Federico García Lorca nasceu na região de Granada, na Espanha, em 05 de junho de 1898. Foi um poeta e dramaturgo espanhol, também lembrado como um pintor, pianista e compositor. Nascido em uma família de proprietários de pequenas terras, mas rico, na aldeia de Fuente Vaqueros, Granada. Foi uma criança precoce, em 1909, seu pai levou a família para a cidade de Granada, na Andaluzia, onde com o tempo ele se envolveu profundamente nos círculos artísticos. Sua primeira coleção de peças em prosa, Paisajes Impresiones, foi publicado em 1918, para aclamação local, mas pouco sucesso comercial.

1912. Família. Abaixo Vicenta e Don Federico. Acima, da esquerda, Federico e irmãos Concha e Paco
Em Madri, no ano de 1919, por recomendação do amigo e antigo mestre, Fernando de los Rios, Lorca foi aceito na Residência dos Estudantes. O local era frequentado por intelectuais, costumando receber palestrantes famosos, como H. G. Wells, Einstein, Paul Claudel, Bérgson, Paul Éluard, Louise Curie, Stravinsky e Paul Valéry.

Sair de sua cidade, deixar a casa de seus pais, ir para faculdade e fazer novos amigos, como não deixaria de ser para qualquer rapaz homossexual oprimido (mesmo nos dias atuais),  foram cruciais na vida sexual de Lorca, como mais adiante se verá.

da esquerda para a direita: Salvador Dalí, José Moreno Villa, Luis Buñuel, Federico García Lorca e José Antonio Rubio Sacristán, Madri, maio de 1926
Na famosa ‘Residência dos Estudantes’ de Madri, Lorca transforma o seu quarto em ponto de encontro de intelectuais e centro de longas reuniões de amigos, assembleias e debates literários. É lá também que conhece Salvador Dali, Rafael Alberti e Luís Buñuel, que futuramente tornar-se-iam a mais fina flor de intelectuais espanhóis.
Lorca e Dalí

Do encontro de García Lorca com Salvador Dali surgiu uma grande amizade, movida por uma forte empatia. Se Lorca era um jovem sensível, de uma alma inquieta, Dali, não lhe ficava atrás, era um homem tímido, que se vestia de forma excêntrica. Se para Dali, aparentemente, nascia uma grande e profunda amizade, para Lorca nascia algo mais, uma profunda paixão.
Lorca e Dalí

Estudantes de belas artes, direito, filosofia etc conviviam no mesmo local. A proximidade de Federico García Lorca com Salvador Dali e Luís Buñuel foi, de fato, íntima.

De acordo com o pintor, em maio de 1926, Lorca tentou manter uma relação física com ele, quis penetrá-lo, e apesar de Dali se sentir lisonjeado pelo amor do poeta, não sucumbiu aos seus desejos, já que não se considerava homossexual, o que Lorca sempre teria respeitado.
 
Na faculdade Luís Buñuel, homofóbico assumido, apesar de ser amigo próximo de Lorca, percebendo traços da homossexualidade deste, fazia terror e não perdia a oportunidade de demonstrar o quanto tinha aversão aos homossexuais. A relação de Lorca e Dali só aumentava. Ao perceber uma proximidade maior entre Federico Lorca e Salvador Dali, Buñuel não poupou esforços para contrariar e sabotar a amizade amorosa que ligava aquele a um complacente Dalí .

Num dado momento, Buñuel vai para Paris e em seguida, Dali larga Lorca em Madri e segue para cidade luz para se encontrar com Buñuel, convencido por este.

García Lorca foi vítima de depressão crescente, uma situação foi agravada pela sua angústia por conta da ocultação da sua homossexualidade de amigos e familiares. Nisso, ele foi profundamente afetado pelo sucesso de seu Romancero Gitano, o que aumentou sua fama, levando-o a dicotomia dolorosa de sua vida: ele ficou preso entre a persona do autor de sucesso, forçado a sustentar publicamente e a vida afetiva sexual, que ele só poderia manter em particular.

O estranhamento crescente entre García Lorca e seus amigos mais próximos atingiu o seu clímax quando Dalí e Buñuel realizaram no ano 1929, em Paris, o filme  Un Chien Andalou (Um Cão Andaluz), marco do surrealismo no cinema. García Lorca entendeu que o título do filme era um violento ataque a ele, uma vez ser oriundo de Andaluzia.

O filme encerrou definitivamente o caso de Lorca com Dalí, ao mesmo tempo que Dalí conhecia sua futura esposa Gala. As relações só voltaram as boas tempos depois.

De qualquer forma, aquela amizade universitária do trio sofreu uma rachadura, Lorca ficou em Madri e Dalí e Buñuel em Paris.

Emilio Aladrén
Num dos estudos realizados sobre a vida amorosa de Lorca, se afirma que outra fase importante teria ocorrido em seguida, quando o poeta,  ainda apaixonado pelo Dali, se sentiu extremamente atraído pelo escultor Emilio Aladrén, que havia ingressado na Escola de Belas Artes em 1922, no mesmo ano de Salvador.  Aladrén era 08 anos mais jovem e extraordinariamente bonito, com cabelo preto, olhos grandes , rosto levemente oriental e de temperamento apaixonado.

Emílio e Federico
Diz-se que Lorca não titubeou em “roubar” Aladrén, sem remorsos, da então namorada, a pintora Maruja Mallo. Os amigos do Lorca desprezaram Aladrén como artista e pessoa, e o consideraram uma má influência para o poeta.  Lorca vestia e levava as festas Aladrén, apresentando-o como promissor escultor, o que teria chegado a levar a cenas de ciúmes com outros amigos.

Essa relação, digamos frágil e aparentemente interesseira, não se sustentou quando uma jovem inglesa, Dove Eleanor, chegou a Madri como representante da empresa Elizabeth Arden, causando a ruptura da relação entre o poeta e o escultor, levando Lorca a ter uma profunda depressão, o que fez com que fosse para Nova York.

Rafael Rodriguez Rapun
Outra pessoa na vida de Lorca foi Rafael Rodriguez Rapun, o homem de três “R”, por quem foi extremamente atraído. Rafael era jogador de futebol, atlético e um socialista apaixonado. Não era gay, adorava mulheres gostosas, mas segundo um amigo, pelo que entendi, teria caído na rede do poeta e se envolveu de tal forma que perdeu o controle da situação.

Existiu um romance, conforme se extrai de uma carta escrita para o poeta Lorca do amado Rapun, na qual se fala das saudades e do tempo desta relação: “Eu me lembro muito de você. Deixar de ver uma pessoa que com quem se tem estado um ano, durante meses, todas as horas do dia é muito difícil esquecer. Especialmente se esta pessoa se sente tão poderosamente atraída por você como eu”.

Constata-se, ainda, que Lorca disfarçava seus afetos em seu meio social, mas não abria mão dos mesmos. Basta ver um evento no qual ele, por exemplo, recebeu de um casal de amigos que morava fora de Madri um convite para  hospedá-lo em sua casa. Tal casal, não ciente da homossexualidade do poeta,  imaginaram que Lorca fosse casado e estendeu tal convite a possível esposa. O poeta aceitou o convite, mas esclareceu que era solteiro, e não teria esposa para ser hospedada com ele, mas levaria seu secretário pessoal, Rafael Rodriguez Rapun. Enfim, aquela conhecida desculpa de secretário, primo, sobrinho de sempre...

Por fim, tem o Eduardo Rodriguez Valdivieso, o “amigo”. Catorze anos mais novo que Lorca, era alto e bonito, com olhos escuros e uma sensibilidade à flor da pele. Trabalhava num banco, amava literatura e era pobre e infeliz. Segundo Ian Gibson, conhecer e ser o amigo favorito de Lorca por cerca de um ano, foi uma das experiências fundamentais de sua vida.

Exemplo desta relação é o conteúdo de uma das setes correspondências trocadas por eles: «Recebi sua carta e respondo imediatamente, muito contente que tenha lembrado de mim, pois acreditava que já havia me esquecido. Eu, como sempre, me lembro, quero saber de você e estar contigo”.


Valdivieso foi descoberto pelo biógrafo e nega terminantemente qualquer relação amorosa, diz que foi só amizade. Mas o engraçado é que em nome da amizade, guardou durante 60 anos, atemorizado por possíveis represálias franquistas, as cartas de amor - não correspondidas - que o poeta lhe enviou quando Valdivieso tinha 20 anos de idade.

Enrique Amorim, Lorca e terceira pessoa não identificada
Um outro personagem surgiu nas pesquisas realizadas que não foi considerado pelo biografo. Trata-se do escritor uruguaio Enrique Amorim, que afirma ter tido uma relação amorosa com o poeta.  De fato, Amorim foi amigo de importantes artistas do século 20, de Picasso a Walt Disney. Mas era um grande ‘mentiroso’ e chegou a inventar uma ossada como sendo de Lorca, apenas para chamar atenção da mídia.

Não tenho como deixar de observar que todos os personagens que Federico Lorca se relacionou eram homens envolvidos com mulheres e que se sentiam atraídos sexualmente pelo sexo oposto. O único que não se casou, nem para "manter as aparências", foi ele.  Garcia Lorca também parecia ter inclinações por homens bem mais jovens, levando em conta que Aladrén era 08 anos mais novo e Valdivieso, ainda mais, 14 anos de diferença.

Para não ficar sem pé ou cabeça, cumpre ainda dizer sobre a vida de Lorca que através de sua poesia, identificou-se com os mouros, judeus, negros e ciganos, alvos de perseguições ao longo da história de sua região. Ele próprio sentiu na pele a discriminação com que os espanhóis da época trataram sua condição de homossexual. Jamais deixou de manifestar aversão aos fascistas e aos militares franquistas.

Entre os textos transgressivos estaria, igualmente, Thamar e Amnón, poema que encerra o Romanceiro Gitano. Baseia-se em um episódio bíblico, a história de um amor entre irmãos, descrita de um modo tão lírico que acaba sendo a apologia do incesto. Pode ser uma metáfora da sua homossexualidade, de seus amores proibidos.

Em 1934, Federico García Lorca já era o mais famoso poeta e dramaturgo espanhol vivo. No dia 19 de agosto de 1936, no auge de sua produção intelectual, foi fuzilado em Granada, aos 38 anos de idade, por militantes franquistas no início da Guerra Civil Espanhola.

E no seu fuzilamento, mesmo que por razões políticas, não deixou de existir a 'cereja do bolo' da homofobia.  Isto porque, segundo o principal  biografo de Lorca, Gibson, um dos assassinos que o executou teria se vangloriado, em Granada, por ter-lhe dado dois tiros "por el culo, por maricón".

A ditadura de Francisco Franco que se seguiu à Guerra Civil (1936-39) censurou por muito tempo sua obra e reprimiu os homossexuais.

Não há como não falar da sua biografia feita por Ian Gibson, aqui no Brasil com título modificado, se chama “Federico García Lorca, uma Biografia”, editora Globo, com tradução de Augusto Klein.  Ignorada por muito tempo, evitada e até marginalizada, a homossexualidade do poeta espanhol Federico Garcia Lorca foi motivo de um estudo aprofundado por parte do biógrafo irlandês.

Nesta biografia, a mais completa que já se produziu sobre ele, alguns mitos são quebrados.

Segundo Ian Gibson " no que toca às circunstâncias da morte de Lorca, o quadro geral é agora claro. No entanto, não se pode dizer o mesmo quando a sua vida privada. Entre os amigos (e a família) do poeta houve sempre uma profunda relutância em comentar ou sequer admitir seu homossexualismo, e uma deficiência desta biografia, se comparada, por exemplo, com a vida de Forster escrita por P. N. Furbank, é que foi simplesmente impossível formar mais que uma visão rudimentar, pelos padrões e europeus ou americanos, desse aspecto essencial da existência de Lorca. Somente uma ou duas cartas ao adorado Salvador Dalí vieram à luz (por sorte temos as do pintor para ele); quase nada se sabe da sua apaixonada relação com o escultor Emilio Aladrén, que morreu em 1942 - salvo o fato de ter sido apaixonada; e poucos dados existem do seu profundo envolvimento com Rafael Rodríguez Rapún, morto durante a guerra." (...).

Numa entrevista concedida pelo biográfo, foi perguntado: “E oficialmente, quais os motivos para prisão de Lorca, quais foram os motivos da denúncia?” e a resposta de Gibson foi:

Que Lorca tinha uma obra subversiva, perigosa, que era amigo de Fernando de los Rios, — ministro socialista —, que era homossexual, e que tinha uma rádio clandestina... era um momento no qual se acreditava em tudo, uma denúncia dessas já bastava para ir ao “paredão”. É preciso imaginar aquele momento, a direita organizou um motim e poderia perder a qualquer momento. Os franquistas já vinham com um plano de matar pessoas e Lorca era um inimigo, não há a menor dúvida de que Lorca era um dos principais inimigos e além disso “rojo, maricón” e famoso.”

Outras biografias surgiram que ajudam a entender melhor este enredo e a história de  personagens que eram próximos de Federico Garcia Lorca. Por exemplo, sempre totalmente ocultada homossexualidade de Salvador Dalí a mesma foi revelada em detalhes pelo colombiano Carlos Lozano, amigo íntimo do pintor, ao escritor britânico Clifford Thurlow, que publicou na Espanha o livro Sexo, Surrealismo, Dalí e Eu. Thurlow descreve pela primeira vez os capítulos mais íntimos da vida privada do pintor a partir do testemunho do pintor e bailarino colombiano Carlos Lozano, que conhecera Dalí em 1969, em Paris.

Segundo Lozano, falecido após revisar originais do livro em inglês, Dalí viveu atormentado por uma homossexualidade sempre ocultada. A obra é resultado de centenas de horas de conversações com Lozano. Em seus relatos, Lozano revive as festas "mais loucas e inacreditáveis" oferecidas por Dalí. O tormento do artista por sua "oculta homossexualidade" tem seu reflexo na vida e na obra do pintor, impregnada de sexo.

Escrito em 1982, quando estava com 82 anos, Buñuel escreveu o livro “Meu último suspiro” onde traz divertidas histórias das relações entre Buñuel e seus companheiros surrealistas, suas diversas brigas com Salvador Dali, a quem sempre acusou de egocêntrico, ou com Garcia Lorca, a respeito de sua homossexualidade, além de todas as dificuldades encontradas nas produções de seus filmes, as revoltas contra alguns deles, como o polêmico “A idade do Ouro” ou seu exílio nos Estados Unidos e sua longa vida na Cidade do México, cidade onde realizou a maioria de seus filmes e faleceu em 29 de Julho de 1983.

No livro de Salvador Dali, A Vida Secreta de Salvador Dali, o mesmo  sugere que o conflito com Buñuel tenha se originado por conta das posições políticas, incompatíveis com as de Dalí.

O livro de Dalí teve consequências. Buñuel foi descrito como um ateu, uma ‘acusação’ que na época era pior do que ser chamado de comunista. Gerou uma espécie de “escândalo” e  protestos por sua presença nos EUA junto ao governo, por conta disto, ficou desempregado do Museu no qual trabalhava nos EUA.

Javier Beltran e Robert Pattinson / Frederico Garcia Lorca e Salvador Dali  

A vida destes três, tendo como personagem central o Federico García Lorca é, inquestionavelmente, interessantíssima. Rica em fatos e detalhes fidedignos porque foram três celebridades que tiveram sempre a atenção não só da mídia, mas também política. Nota-se, inclusive, que mesmo se tratando de um período que não existia tecnologia ou fotografia instantânea, são fartas as fotos existentes.

Também não à toa foram retratados algumas vezes no cinema, como o 'O desaparecimento de Garcia Lorca' (Muerte en Granada) de Marcos Zurinaga ou 'Meia Noite Em Paris' (Midnight in Paris) de Woody Allen, mas merece destaque, em especial, o filme Poucas cinzas (Little ashes, 2008), uma produção EUA/Espanha que conta parte da história antes aqui descrita. O filme vale muito a pena ser assistido, sugiro que vá a locadora e assistam.

Nesta cena do filme abaixo mostra o primeiro beijo entre Salvador Dali (Robert Pattinson) e Frederico Garcia Lorca (Javier Beltran). O beijo acontece na marca de 1:43:




Existe um documentário que ainda não assisti, "Lorca, el Mar Deja de Moverse" que parece se tratar de algo imperdível, que veio aumentar todo o imbróglio que envolve o poeta: coloca em foco sua família e morte. Segundo este documentário, o fuzilamento do poeta espanhol Federico García Lorca (1898-1936) no começo da Guerra Civil espanhola teve a influência de desavenças familiares e aconteceu não apenas pelas suas idéias republicanas e sua condição de homossexual.

O filme, dirigido por Emilio Ruiz Barrachina, sustenta que os primos do escritor por parte da família Roldán instigaram a detenção e o assassinato de Lorca. "Isso era um boato entre os mais velhos de Valderrubios e Fuentevaqueros [povoados da região espanhola de Granada, ao sul do país]", disse Ruiz Barrachina. O diretor afirmou que seu filme se baseia em novos documentos que abordam as circunstâncias da morte.

O filme se baseia na constatação de que, desde o século 19, as famílias García Rodríguez (do pai do poeta), Roldán e Alba dominavam a Vega de Granada, região onde Lorca nasceu em 1898, e mantinham velhas divergências.

Entre as origens dos desentendimentos estão as distribuições de terras compradas em sociedade, a homofobia e as diferentes tendências e ambições políticas no início da Guerra Civil, já que os Lorca eram republicanos e os Roldán partidários do movimento conservador Ação Popular.

Tais circunstâncias se agravaram quando García Lorca publicou em 1936 "A Casa de Bernarda Alba", obra na qual, segundo Barrachina, o poeta destila seu veneno contra as famílias brigadas, em uma espécie de "vingança pessoal". Com o golpe militar de 1936 que deu o início à guerra, essas pessoas aproveitaram "para acertar contas pessoais", segundo Barrachina.

Todas essas revelações estão documentadas no filme, inclusive a de que José Luis Trescastro Medina, um dos autores materiais do assassinato, era o marido de uma prima distante do pai do poeta.

"Foi quem, depois do assassinato, contou que havia introduzido duas balas no ânus de Lorca pela sua homossexualidade", disse Ian Gibson, um dos historiadores que investigou o episódio mais profundamente.

Segundo o filme, após o golpe de Estado de Franco, o governador militar de Granada encarregou os Roldán da formação de esquadras negras para dizimar a população da região, e os primos de García Lorca aproveitaram a circunstância para matar o poeta.

Homofobia

O documentário considera ainda que a homofobia no ambiente político foi uma "das causas da morte" do autor de "Poeta em Nova York". "Sempre se tentou esconder sua homossexualidade, inclusive pessoas da esquerda, já que um mártir de esquerda não podia ser homossexual", diz o cineasta.

Nessas circunstâncias, e após retornar de Madri para Granada, Lorca foi aprisionado na casa da família de Luís Rosales e levado à noite para um lugar entre os municípios granadinos de Víznar e Alfacar, onde as chamadas "esquadras negras" o assassinaram.

"A família de Lorca está tão surpresa quanto nós", afirmam os autores do documentário. No filme, os parentes justificam os 70 anos de silêncio sobre a morte do poeta dizendo que o assunto é um tabu para eles.

Com mais de uma hora e meia de duração, "Lorca, El Mar Deja de Moverse", título extraído de um verso do próprio poeta, traz 25 depoimentos. Quero muito ver este documentário!



Lorca, por ser homossexual, inteligente e influente faz diferença até hoje.

Fica claro isto, especialmente com a resposta dada a uma mulher que pergunta a razão de sua prisão, quando então respondem: "Suas obras". Em seguida, acrescentam à acusação:


"Ele fez mais dano com a caneta que outros fizeram com a arma.".

Essa frase ficou eternizada.

Dedico hoje esta frase aos pejorativamente chamados de 'militantes de teclados' dentro do movimento social. 


Um comentário:

Gitana disse...

Olá!
Fico feliz quando vejo que não estou sozinha na admiração pelo Lorca.

Sobre "El mar deja de moverse", escrevi uma resenha disponível em http://www.pucsp.br/revistaaurora/ed5_v_maio_2009/resenhas/ed5/5_resenha.htm

Abraços.

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