O presente blog se propõe a reflexão sobre os Direitos Humanos nas suas mais diversas manifestações e algumas amenidades.


domingo, 10 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro


Assisti ontem TROPA DE ELITE 2.

Imagino que o leitor esteja se perguntando o que isto tem a ver com Direitos Fundamentais LGBT.

Muito mais que você possa imaginar.

Se este filme tivesse sua estreia antes das eleições, talvez políticos sabidamente fichas sujas do Rio de Janeiro não tivessem sido eleitos, especialmente homofóbicos.

Tropa de Elite 2 é um filme dirigido por José Padilha que também escreveu seu roteiro, com Braulio Mantovani, estrelado por Wagner Moura.

A trama que traz o roteiro de Tropa de Elite 2 é o principal destaque do filme, junto com a montagem, fotografia e atuação de alguns atores. É um filme que obriga a relfexão, de forma bastante primária. Não há grandes esforços para entender o que seria o complexo “Sistema”.

Se trata de um filme inteligente, político, didático e quase imparcial. Mostra a ambiguidade dos dois lados do discurso da defesa dos direitos humanos e do cruel sistema da máquina política e seus consectários, no caso, a segurança pública.

O mocinho do filme antes de ser o personagem de Wagner Moura, Coronel Nascimento, é o BOPE, já que o filme é visto sob ponto de vista do tenente coronel que ama sua corporação e acredita em seus ideais.

A atuação de Wagner Moura, Sandro Rocha e André Mattos (imagens acima) são impecáveis. Você se vê diante daqueles personagens, sem titubear, o que os atores querem mostrar. São tres facetas chaves.

Duas outras peças chaves, o defensor de direitos humanos (o segundo mocinho do filme e rival do primeiro) e o governador, não tiveram o mesmo desempenho. O primeiro por falta de uma melhor atuação e o segundo por culpa do próprio roteiro que, por algum motivo, esvaziou a personagem. Melhor teria sido que fizesse somente menção ao governador e nem o tivesse apresentado no filme. Passaria mais credibilidade.

Infelizmente não foi uniforme a atuação do ator Irandhir Santos, que interpreta o personagem Diogo Fraga e faz o papel de um historiador, militante da Defesa de Direitos Humanos que, no decorrer do filme, se transforma num político de esquerda (PSOU) com os mesmos propósitos. Tudo indica que o filme baseou-se no deputado federal Marcelo Freixo (PSOL), também historiador e político e militante de direitos humanos . Realmente existem momentos bons do ator, mas também outros ruins que passa falta credibilidade na sua atuação, parecendo mais discurso decorado, sem a intensidade emocional e quase sempre extremada deste segmento da sociedade.

Quem conhece a militância de direitos humanos sabe que sua média é personificada por perfis intelectualizados, mas emocionalmente extremistas, tanto quanto são aqueles da direita que defendem a pena de morte ou dogmas religiosos. Apesar de ter um texto impecável para demonstrar isto, o ator que o interpretou me soou falso em vários momentos.

A personagem de Wagner Moura como Sub Secretario da Segurança Pública do Rio de Janeiro faz o elo entre o poder político e as organizações criminosas, envolvendo a polícia militar, as millícias e o tráfico.

Já a surpreendente atuação de Sandro Rocha como Tenente Rocha, favorecido pelo pontual texto e enredo do filme, deflagra o oportunismo de alguém que fez a opção consciente de ultrapassar a linha tenue que separa o lícito do ilícito. O Tenente Rocha é perverso, frio, ambicioso e que soube ser oportunista, tirando proveito na relação existente entre o governo e o tráfico de drogas, armas, “gato net” e outras atividades criminosas. Faz parte da inteligência criminosa do filme.

Adorei o personagem de André Mattos, o Russo. Ele joga na cara do público a sua estupidez política e ingenuidade, a facilidade de ser corrompido pela sedução do discurso fácil de alguém que apareça na mídia televisa. Ele representa ainda o aplauso as soluções fáceis, a fala redundante daquilo que queremos ouvir, misturado muitas vezes com discurso político coerente, como seu veemente protesto contra a instalação da CPI, porque pretensamente seria uma armadilha eleitoreira, já que ocorreria em época de eleições.

Para mim, o autor do filme foi perfeito na criação dos quatro personagens, seus perfis e narrativa: Tenente-Coronel Nascimento, Tenente Rocha, Deputado Russo e Diogo Fraga, o Defensor de Direitos Humanos.

Incrível como em todas as cenas de ação, que foram inúmeras, o filme conseguiu ser perfeito, na direção, fotografia e produção. Todas as cenas envolvendo a periferia discriminada, seja do morro ou do presídio foram igualmente irretocáveis. Mais surpreendente ainda foi ver o filme aparentemente pecar em cenas fáceis, principalmente aquelas ocorridas no gabinete do Governador. Até mesmo na Assembléia Legislativa, com um cenário histórico e austero, amplamente favorável, a câmera parecia não se sentir a vontade ou não gostar do local, deixando de tirar todo o proveito possível. Fiquei com a impressão que o diretor possui séria dificuldade de extrair cenas de qualquer situação que seja para revelar o glamour dos abastardos e poderosos ou qualquer ilação que se assemelhe a elite branca burguesa. Isso se revela até na hora que mostra com distinta competência a galeria da Assembléia Legislativa e não o faz para a bancada daqueles que a preside. As cenas do governador em seu gabinete pareciam mais de alguém sem ter o que fazer, num pequeno conjugado, que só fazia assistir televisão com companheiros.

É um filme imperdível. Não há final esperado para mocinhos e bandidos. Alguns bandidos se dão mal e outros bem. Mostra aquilo que todos conhecem em fragmentos mas não sabem exatamente como conciliar. A didática lição para dectetar a ambiguidade daquilo que supostamente represente o bem ser o mau e o dito mau ser. na realidade, vítima do suposto bem, e vice versa. O filme conduz o telespectador, sem que este venha perder de vista o que é certo e errado, mas estando sob uma cortina de fumaça, onde nem sempre os personagens estão nos lugares ideologicamente pre estabelecidos. Enfim, faz a foto do “sistema” e denuncia a nossa “impotência”. No final, apesar de mortos e feridos, tudo continua como antes, sem esperança.

E, por conta desta falta de esperança de reais mudanças, a todo momento me lembrei de Alvaro Lins, Chefe da Policia Civil de Anthony Garotinho (1998 a 2002), depois mantido pelo governo de Rosinha Garotinho no RJ (2003 a 2007), que em seguida virou deputado estadual e posteriormente presidiário, por pertencer ao crime organizado. Também lembrei das investigações criminais que responde Garotinho e, apesar disto, dos votos que o elegeram a Deputado Federal e do recente convite de Dilma Rousseff para ir a Brasília para apoiar sua candidatura. Apesar da falta de qualquer menção, tudo leva a crer que o filme TROPA DE ELITE 2 utilizou como fonte inspiradora esse triste período de nossa história atual.

Pena que Tropa de Elite não estreou antes das eleições.

4 comentários:

GUSTAVO disse...

O Fraga é baseado, na verdade, no Deputado Marcelo Freixo, do PSOL. Inclusive o próprio Freixo foi consultor do filme.

Carlos Alexandre Neves Lima disse...

Gustavo,
Obrigado pela correção.
Imaginava que fosse o Chico Alencar porque é professor de história. Só que depois de você me advertir fui conferir e o Marcelo Freixo também é. Valeu!
CA

Junnior disse...

Olá, Carlos. Um amigo criou um blog com o objetivo de reunir vários blogs de temática LGBTs num só lugar para ajudar na divulgação. A idéia é, no futuro, separá-los por regiões do Brasil. Se tiver interesse, passe por lá e deixe um comentário com o link e o seu blog será incluído, ok? http://blogayrosbrasileiros.com.br
Ainda não vi o filme (e nem pretendia), mas, depois de ler a sua postagem, pensarei melhor.
Abraços.
Junnior.

ADRIANA disse...

Realmente é um filme muito chocante, que nos leva a muitas reflexões sobre a realidade de nosso país. Se o filme tivesse sido estreiado antes das eleições muitos candidatos "fichas sujas" não teriam se elegido.

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