O presente blog se propõe a reflexão sobre os Direitos Humanos nas suas mais diversas manifestações e algumas amenidades.


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O Rótulo: Homossexual


O orgulho gay advém da necessidade da afirmação que gays existem, no enfrentamento a negativa da sociedade de reconhecer seus direitos, como cidadãos.

Numa sociedade culturalmente cristã e machista, homossexuais sofrem toda sorte de perseguição e humilhações. Com algumas exceções, são tratados como indivíduos de quinta categoria. Sob este enfoque, mais uma vez, torna-se imprescindível que homossexuais se amparem em modelos homossexuais consagrados e vitoriosos que viabilizem trabalhar positivamente uma auto-estima tão destruída.

Não é à toa que, vira e mexe, alguma celebridade, idolatrada por muitos, com fama e reputação, é retirada a fórcipes do armário. Não concordo, considero uma agressão à sua intimidade, mas acredito perceber as razões que a levam ocorrer.

Quando se faz uma Parada Gay, não se está apenas se reivindicando direitos legais. Os LGBTs estão se expondo, pleiteando o reconhecimento de sua existência, com a principal finalidade de obter o devido respeito (no amplo sentido) que merecem.

Todo o Movimento LGBT, assim como a maioria LGBT, diz lutar pelos princípios basilares constante da constituição federal brasileira, ou seja, o direito a igualdade e à dignidade da pessoa humana.

Se é imprescindível o orgulho gay, por outro lado, ele apenas confirma um padrão do desigual. Dizer-se gay é manifestar uma distância e diferença de quem não o é, pior, qualificando o indivíduo restritivamente pela sua sexualidade.

É estranho, pois quando se conhece uma pessoa dentro dos padrões esperados, não se aguarda a indicação de nenhum rótulo: - Prazer, sou Maria, negra e heterossexual. Certamente, Maria se restringirá a se apresentar pelo seu nome. No entanto, se ela possuir traços homossexuais e ingressar num novo emprego, seus novos colegas não estarão ali desejando somente saber o nome da mulher e tampouco a identificarão apenas pelo nome. O jargão homossexual ou outro apelido irá se sobrepor ou se aliar ao seu nome. Será Maria sapatão ou Maria homossexual, ou apenas indicada sua orientação sexual.

Nada de seu todo escapa à sexualidade. Maria passa a ser julgada, valorizada, aceita ou rechaçada a partir de sua prática sexual. Em outras palavras, Maria passa a ser apenas a sua orientação sexual.

Já se formos analisar José, heterossexual. Não constataremos a recíproca como verdadeira. José é apenas José, será julgado, valorizado, aceito ou rechaçado pelo que é como indivíduo, e não apenas pela sua atuação sexual na cama.

Se os heterossexuais agem dessa forma, os homossexuais não estão fazendo diferente deles. De uma forma geral, compactuam com esse comportamento, até mesmo quando se diferenciam do outro se apresentando como homossexual ou afirmando seu orgulho gay (repetindo o modelo de comportamento daqueles que preferem reduzi-los a mera atividade sexual). O homossexual vira um personagem de si mesmo.

Onde está a luta pela igualdade nesta manifesta distinção?

Somos seres humanos, com sexualidade pulsante e não uma Sexualidade Pulsante num eventual corpo.

Como cidadãos devemos lutar pelo direito à igualdade e não diferenças.

Quando se briga pelo direito ao casamento e união estável, por exemplo, a bandeira levantada não deveria ser a inclusão dos homossexuais na norma legal que a especifica, mas sim a retirada de qualquer denominação que os excluam, portanto, palavras como a previsão da união entre “homem e mulher”, exclusivamente. Aliás, como bem pretendeu o Governador Sérgio Cabral, na época Senador, quando propôs a emenda a Constituição Federal para retirada dos termos homem e mulher na previsão da união estável. Essa lógica adotada por ele reflete a qualidade de indivíduo que ele tem sido desde então, na sua atuação política frente aos direitos LGBTs. Não distingui, iguala.

Cumpre fazer a ressalva, para não ser apontado como ingênuo, que a luta por questões de direito não previstas e, em alguns casos, bastantes específicas, portanto, necessárias, não representa contradição a defesa que faço.

Essa questão, aparentemente simplória, possui muitos aspectos a serem estudados, pois não envolve apenas o aspecto legal de um direito a ser normatizado, mas também relevantes feições sociológicas e psicossociais.

A impressão que tenho é que o movimento homossexual acaba lutando pelo direito à igualdade que, infelizmente, nem mesmo ele se deu conta, que não acredita.




PS: O termo “homossexualismo” foi proposto, em 1869, pelo o médico húngaro Benkert, a fim de transferir do domínio jurídico para o médico esta manifestação da sexualidade. Antes do século XVIII, a palavra “homossexual” era utilizada nas certidões de nascimento de gêmeos. Quando eram do mesmo sexo, eram registrados como “homossexuais”. A “homossexualidade”, como doença, só foi excluída do DSM (Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Psiquiátrica Americana) em 1973, após acalorados debates. Há quem argumente, entretanto, que tal decisão foi puramente política. Devido ao radical ismo presente em homossexualismo que remete à doença, optou-se pelo uso da palavra homossexualidade.

7 comentários:

Anônimo disse...

A Cada dia me surpreendo com esse blog, ele é inteligente, interativo e o melhor tem textos que nos abre a nossa mente para questionar e refletir, com isso forma opiniões para luta pelos nossos direitos e tornar o mundo mas justo.

Daniel disse...

Também dou parabéns por este blog,cada vez que venho aqui tem um post melhor!

Vó Carlota disse...

Post maravilhoso, Alexandre. Concordo plenamente com suas reflexões.

Parabéns!

Beijos.

Carlos Alexandre Neves Lima disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Alexandre Neves Lima disse...

Agradeço a todos a gentileza contida nos comentários. É um estímulo e faz acreditar que vale a pena este blog.
Abraços

Daniel disse...

Discordo de você quanto à questão de rótulos, Carlos.

Você fala muito bem da questão da visibilidade quando lá em cima refere-se à parada gay. Mas devemos ter em mente que a visibilidade não deve ser exercida apenas na parada, mas no ano todo. A declaração da própria sexualidade remete a mesma visibilidade que acontece na parada e ela é deveras importante. A declaração dessa diferença não é ilegítima. O que é inadequado nesse quesito é a NECESSIDADE DESSA DECLARAÇÃO para que uma pessoa não seja subtraído de sua sexualidade quando da consideração valorativa de sua personalidade. O que deve ser combatido é o juízo de valor que se elabora quando da declaração de um homossexual reduzindo uma pessoa à sua sexualidade declarada. Não é Maria que está errada por declarar sua sexualidade, mas sim as pessoas que a julgam, valorizam, aceitam ou rechaçam a partir de sua prática sexual.

Sua comparação com o comportamento de um heterossexual não é procedente por um simples fato: ele NÃO PRECISA declara-se hétero para que todas as pessoas automaticamente o considerem hétero. Isso porque o mundo é heteronormativo e héterocêntrico. Você é heterossexual até que prove o contrário, e se não for guarde isso para você porque “ninguém precisa saber o que você faz na cama”. Essa é a mentalidade popular sobre a sexualidade. O irônico e hipócrita é que uma boa parcela dos héteros dizem aos quatro ventos o que fazem na cama sem serem menosprezados por isso ou reduzidos à sua sexualidade.

O que precisa ser combatido é a homofobia, a imposição do armário, a heteronormatividade e o heterocentrismo de forma que uma pessoa não precise mais declarar sua orientação sexual por que ela já será considerada à priori uma possibilidade saudável.

Devemos sim lutar pela igualdade, mas isso não anula nosso direito à diferença. E não falo apenas numa perspectiva legalista, mas também social. Ter o direito de não ser discriminado por uma dada condição implica necessariamente em ter o direito à essa diferença e a manifesta-la.

"Lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem. Lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize" Boaventura de Souza Santos – Sociólogo.

Abraços,

Daniel Rodrigues

Daniel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
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