O presente blog se propõe a reflexão sobre os Direitos Humanos nas suas mais diversas manifestações e algumas amenidades.


terça-feira, 2 de março de 2010

Carlos Tufvesson dá entrevista à Revista Júnior #15 e diz que movimento gay virou agência de viagens

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"Carlos Tufvesson é conhecido nacionalmente não apenas por vestir globais e socialites mas também por seu ativismo pelos direitos civis LGBT. Casado há 15 anos com o arquiteto André Piva, usa o grande espaço que tem na mídia, a proximidade com poderosos e seus disputados desfiles para levantar as bandeiras do casamento gay e da luta contra AIDS. Em um papo no café da Daslu durante a são Paulo Fashion Week, fez graves denúncias contra o movimento organizado, reconheceu que não consegue atrair nem amigos nem seu marido a se engajarem na militância e avaliou que, apesar de querer muito se casar de papel passado e ser um dos estilistas favorito das noivas cariocas, não ficaria bem de véu e grinalda.

Acusado de burguês por militantes, estilista das famosas rasga o verbo e afirma que movimento gay virou agência de viagens.

O que aconteceu para você se envolver nessa batalha por direitos?
Eu me casei com um italiano, morei na Itália com ele por cinco anos e nunca consegui visto. Senti na pele que fazia parte de uma minoria sem direitos. Depois disso voltei para o Brasil, vivo com o André há 15 anos e continuo sem esses direitos. Não tenho filhos, mas tenho sobrinhos e quero um Brasil melhor para eles. O que não podemos é ficar 20 anos lutando e nada acontecer. e, pior, não temos uma luz no fim do túnel ainda. Países como argentina e Uruguai (onde já foi aprovado recentemente união para casais homossexuais) já estão colhendo frutos de uma discussão que começou antes no Brasil. Um belo dia percebo que o movimento gay tirou da pauta a questão da união civil alegando que ela só interessa a quem tem bens e dinheiro para dividir, ao invés de entender como um projeto de cidadania plena. É o único projeto que faz a sociedade formar uma opinião sobre o que é ser homossexual, que não é só uma coisa de promiscuidade. O atraso na regulamentação dos direitos civis dos cidadãos homossexuais no Brasil é fruto das estratégias erradas adotadas por esse movimento, uma cegueira ideológica.

Você tem esse embate dentro do movimento por causa disso? Por te enxergarem como burguês...
Cara, estou aqui para lutar pelos meus direitos civis como cidadão. Acho que é uma falsidade ideológica dizer que o André é meu amigo. Eu tenho pavor disso, falo muitas coisas na cara dos outros, na cara de governadores, de prefeitos. É lamentável que a decisão do movimento seja priorizar o PLC 122 (que criminaliza a homobofia), um texto fraco, de código penal.

Por que essa resistência do movimento à união civil?
Isso é uma questão que o Luiz Mott me explicou. Tem essa resistência por achar que é uma questão burguesa. Pega o exemplo do Pacs (Pacto de União Civil) na França. Ele mudou a maneira como a sociedade francesa via os gays. Discutir com pessoas que não têm essa visão cosmopolita de mundo, estratégica, é muito complicado. Ficar gritando ‘sexo anal derruba o capital’ não dá. Não dá para ficar brigando com a imprensa, acusando de ser capitalista. O movimento está com uma comunicação completamente errônea, a imprensa é muito mais nossa aliada. No Brasil existe um apagão de direitos LGBt. Dois parlamentares fortes de um partido do governo declararam recentemente que falar sobre direitos gays seria prejudicial à campanha presidencial. O governo federal discursa muito, não faz quase nada e o movimento não abre a boca.

Qual seria a saída para o fim desse apagão?
Primeiro: uma mudança geral das lideranças homossexuais. Numa boa, se o time não está ganhando, troca o técnico. Existe um sistema feudalista no movimento, de capitanias hereditárias. Cada lugar tem um chefão e não podem surgir lideranças novas. isso é grave.

Mas se saem essas lideranças, quem entra?
É melhor que não tenha. Para conseguir nossos direitos não precisa ter 500 seminários, distribuição de passagens para quem bate-cabeça para o governo. está virando um movimento de turismo. Aliás, ele poderia mudar e passar a ser subvencionado pelo Ministério do turismo, não precisa mais ficar na secretaria de Direitos Humanos. É ridículo. e ainda ficam levantando bandeira babaca. se não tiver ninguém, fica melhor do que a situação como está, pois parece que tem alguém e na verdade não tem. eu não sou um grupo, mas tem muita gente que me apóia. as ações que eu faço nunca são solo, não defendo nenhum personalismo no movimento, defendo grupos fortes e com representatividade. Forte não é ser amigo de alguém, forte é ter representatividade na sua cidade. É desesperador ver que há cinco anos os grupos chamavam para manifestações em rua e agrupavam 100 pessoas, que nem era um número muito grande. Mas agora não reúnem nem cinco pessoas. não adianta ter uma associação nacional com 300 afiliadas se cada grupo tem cinco afiliados.

Se tiver 1.500 pessoas até que é bastante...
Mas muitos grupos que tomam a decisão pelo movimento funcionam na sala de casa de alguém e não conseguem dialogar com a sociedade. O que eles representam? a gente sabe que o movimento não é coeso, não é unido, na verdade as pessoas só falam mal das outras pelas costas. Eu prefiro o trabalho de formiguinha. Uma ação no TJ do Rio vai ter um efeito muito maior do que anos de seminários e passagens pagas com o dinheiro do contribuinte.

Rola uma ciumeira no movimento por você ter espaço na mídia?
Esse espaço que eu tenho trago da minha história como estilista e uso em prol de uma causa, não tiro espaço de nenhum militante. Numa guerra temos que usar os melhores soldados, as pessoas que podem articular melhor. Não que eu seja soldado melhor que os outros, mas sou um soldado, e não posso ser deixado de lado. as pessoas não são estimuladas a participar de grupos por uma questão simples: é para que não possam votar e, assim, que mantenham os mesmos eternamente lá. No último desfile eu fiz um protesto porque ninguém lembrou dos 40 anos de Stonewall! Pode alguém do movimento ser um pouco mais específico sobre o que é e o que se celebra em uma parada? Sem formação de opinião a gente não vai conseguir nada!

Outra questão que você vem batendo é justamente o fato das Paradas no Brasil acontecerem de acordo com o calendário de feriados do país e não estarem ligadas à questão do orgulho gay.
Isso é mais uma coisa que eu me choco de frente com o movimento. Os gays de 18 anos nem sabem o que foi a revolta de Stonewall, que temos 40 anos de história, que muita gente já lutou e já morreu por isso. O orgulho de ser gay é o que celebramos no 28 de junho, no mundo inteiro. No Brasil se faz parada de janeiro a janeiro. É só para os militantes poderem viajar. Quando esses militantes vão sair das salas de conferências e começar a falar com a comunidade? Não adianta chegar em Brasília e falar ‘represento 10% da população’. Não amor, você representa 150 pessoas do seu grupo.

Como você lida com essa questão dentro de casa? Porque o André não milita...
Ele respeita super. Eu não posso atrair meu marido para uma militância organizada que eu mesmo questiono. Eu vejo amigos meus que não sabem nem que existem grupos gays... Você acha que eles participariam de um movimento? Eu sonho que um dia isso aconteça. Queria que eles entendessem que se em cada cidade houvesse um grupo forte e organizado, que prestasse assistência psicológica, jurídica e humana, tudo seria diferente. Mas se optou por não dialogar com as pessoas e sim pegar verba federal dizendo que representa essas pessoas.

Sua família nunca achou que estava se expondo muito?
Isso só aconteceu uma vez. Foi quando tive uma proposta para ser candidato a deputado. Minha irmã me chamou e disse que seria demais. eu tomo cuidado pra não falar militantês demais.

Quando sair o casamento ou a união civil, você vai casar?
Vou! Já pensei em casar fora do país, mas qual seria o sentido? Eu continuaria sem meus direitos respeitados aqui... e você vai casar? Não sei, talvez sim. Você pensa em como seria o casamento, na festa, nas roupas... Eu queria apenas a família e as pessoas mais queridas do lado. Você sabe que seria meu padrinho...

E a lua de mel?
Gato, a gente já é casado há 15 anos, seria apenas uma formalização.

E você acha que mudaria alguma coisa?
Não, mas o meu caso é absolutamente atípico. Minha relação já é respeitada pela minha família.

Vocês já fizeram algum tipo formalização?
A gente é péssimo nisso. Quando fomos fazer testamento, a gente chorava um para o outro, drama queen total. No nosso caso já existe um reconhecimento na sociedade. A gente deveria ter um contrato, mas o casamento é diferente, ele daria o respaldo do que realmente é a nossa relação.

Mas até ele ser aprovado, o que a gente faz?
2010 é um ano de eleição e devemos analisar a plataforma de todos nossos candidatos, não acreditar em marketing político. Uma das grandes decepções que tive foi com a Marta e aquela campanha pavorosa, colocando a questão do preconceito sexual. na verdade tem vários políticos que sabemos que são gays e isso nunca foi usado em campanha. Precisamos nos focar na eleição de candidatos que lutam pelo reconhecimento dos direitos civis. Se não vai continuar essa eterna merda. Como o (ex-presidente da Câmara dos Deputados) Severino Cavalcanti, que dizia que queríamos casar de véu e grinalda na igreja. Ninguém quer casar de véu e grinalda na igreja. Eu não ficaria bem de véu e grinalda.

Quando o casamento for aprovado a tua luta acaba?
Não. Vai continuar sendo preciso dizer às mães que descobrem que o filho é gay que elas não devem ficar temerosas achando que ele vai ser infeliz. Você pode ser feliz amando uma pessoa do mesmo sexo, você só é infeliz se for obrigado a se casar com uma pessoa que não ama, que não sente tesão. Estamos aqui para viver e sermos felizes. A gente veio para o mundo com a função de ser feliz e de desejar o bem ao próximo."

Fonte: Revista Júnior número # 15

7 comentários:

Ricardo Aguieiras disse...

Parabéns, Carlos pelas suas posturas e posicionamentos. Por nos lembrar o que realmente é importante. E obrigado!
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br
http://aguieiras.wordpress.com/

Papai Gay disse...

Adorei! Como faço pra entrar para o movimento?

mario disse...

Este cara é pauleira. Mandou muito bem. Imagina quanta gente deve odiar ele por falar a verdade. Eles e os que puxam o saco do movimento para conseguir um bico devem estar pipocando. Carlos Tufisson parabéns!

Carlos Alexandre Neves Lima disse...

Ricardo Aguieiras,
Li recentemente um maravilhoso artigo seu. Parabéns.
E, realmente, Carlos Tufvesson, não nega fogo e assume uma postura única. Ele está de Parabéns!

Carlos Alexandre Neves Lima disse...

Papai Gay,

Poxa, se o artigo transcrito lhe criou entusiasmo, já valeu por si só sua transcrição.
É muito importante a participação para que não deixemos de nos fazer representar.
Não sei a cidade que mora, mas procure uma ONG LGBT da sua cidade e verifique se você considera que ela se adequa a sua pessoa. Sua participação é e será sempre fundamental.
Abraço

Carlos Alexandre Neves Lima disse...

Mário,
Parece até que você já soube da reação deles. Exatamente como você sugere. Carlos Tufvesson incomoda muita gente, apesar de apenas lutar pelo interesse de todos.
abs,

...ToNy_kMaRgOo...* disse...

Nossa!
EXCELENTE ARTIGO!
É isso ai, vamos correr atras do que eh nosso direito, até animal hj em dia tem direito, qual é o problema em ser gay???
só pq um gay fala os podres que a sociedade carrega nas costas com medo do que possa acontecer?
CHEGAAAA!!!

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